De 18 a 22 de agosto de 2014, ocorrer​á​ , no Rio de Janeiro, o Seminário Internacional “Ciência Aberta, questões abertas”. A proposta do Seminário é discutir as perspectivas e barreiras à ciência aberta, debatendo abordagens e práticas inovadoras nesse campo.

Na pr​é​-Conferência, 18 e 19 de agosto de 2014, serão realizadas oficinas visando trocar experiências e discutir projetos e redes colaborativ​o​s em ciência aberta. ​A programação e a forma de inscrição ​n​as oficinas serão divulgadas em breve.

A segunda parte do evento (de 20 a 22 de agosto de 2014) será organizada em sessões temáticas, incluindo temas como:

  • Questões e tendências em debate no campo da ciência aberta: perspectivas críticas;
  • Ciência cidadã e educação aberta;
  • Ferramentas científicas abertas;
  • Inovações na publicação científica e alternativas de avaliação;
  • Dados científicos abertos;
  • Wikipesquisa e cadernos científicos abertos.

O Seminário é uma realização do Liinc – Laboratório Interdisciplinar sobre Informação e Conhecimento/IBICT-UFRJ; da Open Knowledge Brasil; do IBICT/Coep; da Unirio/Cead e do Grupo de Trabalho Ciência Aberta.

O programa do evento, formulário de inscrição e demais informações encontram-se em https://www.cienciaaberta.net/encontro2014/.

Até lá!

Ni!

Hoje eu apresentei a palestra com o título deste post no Fórum Internacional de Software Livre =)

A proposta foi relacionar os dois movimentos mostrando como o Software Livre faz parte do progresso histórico da ciência, mas também como este inspirou-se no rápido desenvolvimento daquele para ganhar impulso no final do século XX em direção à Ciência Aberta.

Apresentação: Ciência e Software Livre, ou Lá e de Volta Outra Vez

Vídeo:

Rio guanabara

Ni!

Encontra-se aberta a chamada de propostas para oficinas durante a parte anterior do encontro “Ciência Aberta, Questões Abertas”, nos dias 18, 19 e 20 de agosto de 2014 no Rio de Janeiro.

Buscamos atividades que habilitem aprendizes e pesquisadores a realizarem suas pesquisas de formas abertas, dentro de qualquer tendência, assim como que provoquem colaborações e construam recursos para avançar a ciência aberta no Brasil.

Tendências incluem a abertura das publicações, dados, ferramentas (software, hardware, wetware), da própria pesquisa (cadernos abertos, wikipesquisas), da educação, ciência cidadã (participativa, amadora, crowdsourcing), avaliação (altmetrics), dentre outras.

Propostas de oficinas podem ser enviadas por email para encontro2014@cienciaaberta.net, para a lista de discussão do grupo de trabalho, ou incluídas na página da Wikiversidade.

Na parte posterior, dias 20, 21 e 22, ocorrerá um seminário internacional, com praticantes exemplares e pensadores das diversas tendências ao redor do globo – e do Brasil – para melhor compreendermos esse fenômeno da Ciência Aberta, seus desafios, suas formas e dinâmicas, e juntos investigarmos os próximos passos a percorrer.

Quaisquer dúvidas sobre o encontro podem ser encaminhadas para o email: encontro2014@cienciaaberta.net

Um grande abraço, e ajudem na divulgação!

collab

Nota: Essa é a tradução para o português do post “Collaborative Lesson Development – Why Not?” de Justin Kitzes. A figura anterior não faz parte do post original em inglês.

Algumas semanas atrás, Greg Wilson perguntou-me:

Por que existe tão poucos currículos e planos de aula desenvolvidos de forma aberta e colaborativa? Existe alguma coisa que torna o ensino diferente de programar (e.g., open source software) e escrever (e.g, Wikipedia)?

Depois de uma dúzia de emails, não posso dizer que ficamos próximo de uma resposta definitiva, mas chegamos a uma hipótese e estamos interessados em comentários.

Os três principais ingredientes necessários para o desenvolvimento colaborativa de qualquer tipo de material são:

  1. alguém que fornece a infraestrutura necessária para o projeto,
  2. grupo de pessoas que integrem e gerenciem contribuições, e
  3. contribuidores que produzem o material.

Por exemplo, o desenvolvimento contínuo do IPython requer GitHub, o time principal de desenvolvedores (especialmente Fernando Pérez e Brian Granger), e pesquisadores/programadores capacitados para enviar contribuições. O crecimento da Wikipedia requer a Fundação Wikimedia, o time de administradores, e leitores interessados que saibam como utilizar o editor online.

A falta de planos de aula abertos e colaborativos pode decorrer da ausência de qualquer um desses três fatores. Greg acredita que a grande limitação seja #2: enquanto vários educadores/professores podem escrever e editar planos de aula parece que eles não estão capacitados a gerenciar o desenvolvimento de um material colaborativo. Entretanto, a existência de livros colaborativos sugere que essa não seja uma atividade absurda.

Me voto é que a grande limitação seja #3: potenciais contribuidores necessitam de um certo nível de familiaridade e conforto com as ferramentas que possibilitam trabalhar de forma colaborativa (tais como controle de versão ou editor online). Suspeito que essas habilidades são mais raras em educadores quando comparado a programadores ou leitores da Wikipedia.

Uma interessante excessão é o material desenvolvido pela Software Carpentry. Software Carpentry funciona graças ao GitHub, Greg e um time de colaboradores, e vários instrutores familiarizados com o modelo de pull request presente no GitHub. O uso do GitHub e a familizarização com o mesmo deve-se ao fato de que os contribuidores do material da Software Carpentry são, by design, também pesquisadores e programadores.

Importante, a intervenção necessária para promover o desenvolvimento de materiais colaborativos dependerá de onde o gargalo encontra-se:

  1. Se o problema inicial é a infraestrutura, alguém precisa financiá-la, mantê-la, e (mais importante) divulgá-la em algum website com grande visibilidade. Curriki parece ser uma possibilidade (embora Greg tenha notado que várias iniciativas similares tenham falhado no passado). Uma importante consideração deve ser diminuir as habilidades necessárias para contribuidores à menor quantidade possível (pense em um editor online ao invés do modelo fork/pull utilizado pelo GitHub).
  2. Se o problema inicial é o grupo de pessoas que gerenciem o projeto, um grupo dos atuais líderes na educação precisam ser voluntários ou oferecerem incentivos para aqueles que forem voluntários na tarefa de iniciar o desenvolvimento e gerenciamento de tal material na sua respectiva área. Esse papel pode e deve ser reconhecido como equivalente a ser o editor de um livro publicado.
  3. Se o problema inicial é a falta de contribuidores, treinamentos nas ferramentas colaborativas a serem utilizadas deve ser oferecido para educadores que manifestarem interesse na ideia de desenvolver planos de aula abertos. Embora incentivos podem ser úteis, contribuidores de software de código aberto e da Wikipedia normalmente não recebem compensações diretas pelo seu trabalho.

Ou talvez isso seja um trabalho em andamento e precisemos esperar a próxima geração de educadores (e estudantes).

E isso foi até onde conseguimos chegar. O que você pensa?

Chamada de Artigos da Liinc em Revista: “Desafios contemporâneos à produção colaborativa em ciência, tecnologia e inovação”

A Liinc em Revista estará aberta, de 30 de janeiro a 8 de julho de 2014, para submissão de artigos para publicação no número 2, volume 10, de novembro de 2014. Este número conterá dossiê, organizado pelas profas. Maria Lucia Maciel (UFRJ) e Sarita Albagli (IBICT) sobre o tema “Desafios contemporâneos à produção colaborativa em ciência, tecnologia e inovação”.

O dossiê visa promover a reflexão sobre as transformações nas formas e práticas de produção colaborativa em ciência, tecnologia e inovação (CT&I), considerando, de um lado, as novas formas e possibilidades de circulação ampliada da informação e do conhecimento em CT&I e, de outro, as barreiras que se colocam a essas dinâmicas. Incluem-se aí, dentre outros, temas como:

  • Novos formatos e dinâmicas de produção coletiva em ciência, tecnologia e inovação (ciência aberta, inovação aberta, dados abertos, produção P2P, produção wiki, crowdsourcing, e-Science…);
  • Colaboração em CT&I e propriedade intelectual;
  • Desafios e oportunidades à cooperação internacional em CT&I nesse cenário;
  • Oportunidades e barreiras à mobilidade internacional em CT&I.

Além do dossiê, a revista está aberta à submissão de artigos sobre outros temas em seu escopo de reflexão, conforme suas normas.

(Normas da Liinc em Revista)

Acesso Aberto e Ciência Aberta são parte dos princícios essenciais para a criação e compartilhamento de conhecimento. Com o objetivo de apoiar, integrar, fortalecer e facilitar a adoção e implementação de tais conceitos entre os pesquisadores da União Européia, 25 integrantes de 13 instituições que formam o consórcio FOSTER (Facilitate Open Science Training for European research), iniciaram um projeto de dois anos para promover o conhecimento e as práticas de Open Access, Open Datas e Open Science na União Européia.

Para acompanharem os próximos desenvolvimentos do projeto podem seguir a informação via:

Twitter: @fosterscience

Hashtag: #fosteropenscience

Facebook Page: https://facebook.com/fosteropenscience

Site: http://www.fosteropenscience.eu

Marcado com: ,

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Caríssimos,

Este grupo de trabalho em Ciência Aberta faz parte de uma rede global de grupos semelhantes, apoiada por sua vez por uma rede de organizações que promovem o conhecimento livre, a OKFn.

No dia 20 de janeiro, houve uma reunião entre participantes ao redor do globo para compartilhar ações e planejar uma agenda comum para 2014.

Abaixo, traduzo o email da Jenny Molloy na lista open-science global, coordenadora da rede global de Ciência Aberta. =D

Queridos todos,

Obrigado àqueles que participaram do encontro na tarde de ontem [1], nós discutimos no que o grupo de trabalho deve focar em 2014 e também sobre ter um time de coordenação para garantir que tudo corra suavemente – um agradecimento especial a todos que se voluntariaram para ajudar com isso e a todos aqueles coordenando projetos e grupos locais. Nós adoraríamos seu retorno e sugestões sobre as ideias abaixo ou novos projetos que você gostaria de propôr.

Open Science Working Group 2014 Projetos (seguidos de atividades/tarefas específicas e coordenadores iniciais)

  1. Mineiração-de-conteúdo “Content-mining” (Puneet Kishor, Peter Murray-Rust, Ross Mounce)
    • Estudos de caso/conscientização
    • Oficinas (inc. possivelmente uma na OKFest)
    • Interessado em juntar-se? Há uma nova lista de email [2]
    • Atentem para uma chamada à parte sobre este projeto
  2. Grupos locais (Graham Steele)
    • Expandir o número de embaixadores e grupos locais em Ciência Aberta
    • Kit para começar um grupo local (comofaz, lista de email, wiki, website, visibilidade pelo grupo global).
    • Mapa e diretório no site do grupo de trabalho para ajudar pessoas a localizar atividades locais em ciência aberta
  3. Censo da Ciência Aberta (Grupos locais)
    • Mapear o cenário local em ciência aberta – iniciativas, leis relevantes e políticas, financiamentos, atitudes etc.
    • Um exemplo Brasileiro https://pt.wikiversity.org/wiki/Pesquisa:Ci%C3%AAncia_aberta_no_Brasil
    • Liderado por indivíduos ou grupos locais – entre em contato se estiver interessado em escrever e encontrar colaboradores para trabalhar num relatório para seu país!
  4. Ciência Aberta para o Desenvolvimento (Jenny Molloy)
    • Este ano (2013) estivemos envolvidos em formatar um projeto sobre ciência aberta no sul global e continuaremos envolvidos em formar comunidades e colaboração com os parceiros que ganhamos disso.
  5. Criar Manuais de Ciência Aberta (Alguém interessado em coordenar isso?)
  6. Treinamento em Ciência Aberta (Alguém interessado em coordenar isso?)
    • A Panton Fellow Sophie Kay desenvolveu uma iniciativa fantástica de treinamento http://www.opensciencetraining.com/
    • Nós gostaríamos de começar um diálogo e compilar novos materiais abertos para ensinar aspectos de ciência aberta ou usar ciência aberta no ensino

Coordenação do Grupo de Trabalho Global
Lista de email: Ross Mounce
Editores do Blog: Kathleen Luschek, Rayna St and Scott Edmunds
Website e Mídias Sociais: Brian Glanz and Graham Steele
Grupos Locais: Graham Steele
Encontros do GT e Conselho Consultivo: Stefan Kasberger, Keren Limor, Suchith Anand, Sridhar Gutam
Coordenação Geral: Jenny Molloy

Se mais alguém gostaria de envolver-se, vocês ainda são bem vindos a assinar na lista de voluntários [3] – quanto mais, mais alegres.

Muito obrigado e atentem para comunicados do novo time muito em breve, nós também estamos esperando ver uma reformulação de alguns aspectos do website para tornar muito mais fácil adicionar-se como membro de um grupo de trabalho e encontrar outros interessados em ciência aberta na sua área ou especialidade!

Jenny

MSF e IO piden a Novartis que retire su demanda contra la ley india de patentesNi!

Um excelente artigo publicado em Outras Palavras expõe, através de casos publicamente documentados, como o sistema de patentes, atuando sobre fármacos, incentiva e premia o descaso com testes clínicos e a corrupção de agências reguladoras para acelerar a corrida pelo lucro privado a despeito da vida, entregando drogas sabidamente inseguras para a população.

http://outraspalavras.net/destaques/industria-farmaceutica-mentiras-e-muito-dinheiro/

Infelizmente essa é apenas mais uma perversidade desse sistema, e talvez nem a mais grave se comparada às distorções econômicas e morais que ele perpetua globalmente.

Econômicas, promovendo concentração abusiva, cartéis e um sistema custoso que em última análise impede não só a concorrência como também a inovação que suporia avançar (ver Murray et al. e Boldrin et al.).

Morais, evidentemente negando acesso aos meios para a saúde de bilhões de pessoas.

Nem é preciso apontar os inúmeros esquemas também já expostos de manipulação de artigos científicos para falsificar efeitos de medicamentos (ver Bero et al. e em Science Carreers), suborno de médicos para recomendação de drogas (ver em ProPublica), corrupção de agências reguladoras (ver Lenzer).

O sistema de patentes sobre fármacos requer imediata extinção e implementação de alternativas para pesquisa e desenvolvimento como prêmios, financiamento público, transparência promovendo colaboração e validação etc.

Do jeito que estão, patentes sobre medicamentos – através das práticas de uma indústria farmacêutica baseada na privatização do conhecimento – são crime contra a humanidade.

.~´

Na semana passada tomei conhecimento da Open Science Training Initiative:

O movimento de Ciência Aberta é um importante instrumento para o trabalho colaborativo e o compartilhamento de nossa pesquisa em escala global na era digital por meio do desenvolvimento de infraestrutura para compartilhamento de dados, práticas de licenciamento e metodologias. Mudanças nas políticas das entidades de fomento à pesquisa e editoras já estão ocorrendo mas precisamos garantir que os ideais de abertura sejam absorvidos por todos os níveis na academia. Abertura na academia precisa ter o suporte de mudanças políticas partindo dos níveis superiores e de treinamento para os mais jovens. A Open Science Training Initiative espera contribuir na segunda parte ao lhe ajudar a integrar treinamentos sobre ciência aberta nas suas lições já existentes. (Traduzido e adaptado da página inicial da Open Science Training Initiative (sob CC-BY))

Eles realizaram um treinamento piloto no qual simulam a reprodução de um trabalho pelos pares (ver descrição aqui) que foi acompanhado com algumas lições (disponíveis e comentadas aqui).

Matéria publicada em Outras Palavras com licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual.

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Por trás do suposto rigor das publicações “de excelência” pode estar o epistemicídio — a tendência da Academia a sepultar pensamentos dissidentes. Mas há alternativas

Por Alex Martins Moraes

O que a entrega do prêmio Nobel de medicina 2013 e a divulgação dos resultados da avaliação trienal do sistema de pós-graduação no Brasil têm em comum? Além de ambos os eventos terem ocorrido na primeira quinzena de dezembro, eles também convergem, por razões distintas, em outro sentido: representam uma boa oportunidade para repensar e criticar as modalidades vigentes de produção do conhecimento em nosso país.

O biólogo molecular estadunidense Randy Wayne Schekman, que recebeu o prêmio Nobel junto com seus pares James Rothman e Thomas Südhof, aproveitou a visibilidade pública proporcionada pela premiação para instaurar uma forte polêmica com algumas das publicações científicas mais importantes no campo das ciências biológicas. Em coluna publicada no The Guardian um dia antes da cerimônia do Nobel (versão em espanhol publicada pelo El País), Randy Schekman acusou as revistas Nature, Science e Cell de prestarem um verdadeiro desserviço à ciência, difundindo práticas propriamente especulativas para garantirem seus mercados editoriais. Entre estas práticas, Schekman menciona a redução artificial da quantidade de artigos aceitos para publicação, a adoção de critérios sensacionalistas na seleção das colaborações e um total descompromisso com a qualificação do debate científico. Schekman conclui sua intervenção com o seguinte chamado à comunidade científica: “Da mesma forma que Wall Street precisa terminar com o domínio da cultura dos bônus, que fomenta certos riscos que são racionais para os indivíduos, mas prejudiciais para o sistema financeiro, a ciência deve se libertar da tirania das revistas de luxo. A consequência dessa escolha será uma pesquisa que sirva melhor aos interesses da ciência e da sociedade”.

Northern Qi Scholars

Aparentemente refratária a esse tipo de crítica – que, aliás, vem se tornando cada vez mais comum em todas as áreas do conhecimento–, a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) confere um peso decisivo às publicações em revistas de alto impacto no momento de avaliar o desempenho e a qualidade dos cursos de pós-graduação brasileiros. Para a antropologia, área da qual provenho, a avaliação da CAPES atribui um peso de 40% sobre a nota final à produção intelectual dos docentes de cada instituição. Na prática isto significa que, para atingir os conceitos máximos de avaliação (6 e 7), um determinado programa de pós-graduação deve esperar que todos os seus professores de mestrado e doutorado efetuem – para citar diretamente o roteiro de avaliação da CAPES – “a publicação de resultados de pesquisa, sob a forma de artigos em periódicos científicos, livros e capítulos de livros qualificados, com destacada proporção e média por docente nos estratos A1, A2 e B1 do Qualis Periódicos”. Levando em conta a quantidade de artigos publicados pelos docentes permanentes dos programas de pós-graduação em antropologia mais produtivos no triênio 2010-2012, o “ideal” seria, em média, cerca de duas publicações por ano por docente em revistas indexadas – isto sem mencionar as demais publicações, como livros, capítulos de livros, audiovisuais, relatórios técnicos, etc.

A avaliação da CAPES na área antropologia/arqueologia não leva em conta o fator de impacto das publicações, dado que a maioria das revistas de ciências humanas não dispõe dos meios para quantificá-lo. Neste caso, a classificação dos periódicos nos estratos A1 e A2 exige, entre outras coisas, que eles figurem em indexadores internacionais. Já o estrato B1 requer que figurem em pelo menos dois indexadores, sejam eles internacionais ou não. Outras áreas, como a medicina, adotam diretamente uma classificação elaborada com base na mediana do fator de impacto das revistas, obtidos junto ao Journal Citation Reports (JCR) e calculados anualmente pelo ISI Web of Knowledge. Isto implica o condicionamento da avaliação da produção científica às dinâmicas do mercado editorial internacional, com todas as consequências aventadas por Randy Schekman em seu artigo no The Guardian. Pior ainda, ao aplicar classificações desta ordem, a CAPES enfraquece o próprio parque editorial nacional e favorece uma forma questionável de internacionalizar a produção científica, colocando as revistas mantidas por universidades públicas e entidades de classe em detrimento de periódicos estrangeiros, financiados, em sua maioria, pela iniciativa privada e aferrados aos cânones da propriedade intelectual.

No caso das ciências sociais e humanas, o produtivismo amparado pelas avaliações da CAPES se materializa numa miríade de efeitos preocupantes, alguns deles inesperados. Não me refiro apenas à precarização do trabalho de professores e estudantes ou à perda de organicidade da produção intelectual decorrente da ênfase obsessiva na escrita de artigos e de apresentações para congressos. Talvez o aspecto mais assustador e menos criticado de uma avaliação da pós-graduação inspirada pela ideologia produtivista seja que ela ampara o epistemicídio. O epistemicídio – noção desenvolvida, entre outros, por Boaventura de Sousa Santos – consiste na eliminação ou inferiorização ativa de algumas formas de conhecimento em favor de outras, consideradas mais desejáveis no marco de uma dada estratégia de poder. Por exemplo, a anulação de certos saberes locais, sua folclorização ou deslegitimação pública foi e é uma modalidade de epistemicídio aplicada sobre diversas populações ao longo das experiências coloniais na América, Áfria e Ásia. O produtivismo está a serviço do epistemicídio porque bloqueia ou dificulta seriamente e emergência de outras formas de construção e enunciação do conhecimento em um momento de relativa democratização das universidades públicas brasileiras. Em poucas palavras, o produtivismo compromete a diversidade das formas de fazer ciência e a própria criatividade humana no exato momento em que se converte em critério valorativo hegemônico para a distribuição dos recursos necessários à produção de conhecimento. Ao erigir-se como critério chave de avaliação da relevância da produção intelectual, ele impõe sistemas de hierarquização que só fazem reiterar privilégios epistêmicos de longa data e comutá-los, logicamente, em privilégios político-institucionais. Só as modalidades mais conservadoras e pouco imaginativas de fazer ciência se adaptam, sem grandes problemas, aos atuais imperativos de quantificação. Já os estudos guiados pela co-investigação prolongada e participativa, os amplos panoramas exploratórios, as práticas colaborativas e situadas de escrita científica, etc. não conseguem sobreviver a esses imperativos.

As ciências sociais e humanas hegemônicas, legitimadas pelo produtivismo, marginalizam – ou produzem como inexistentes – outras práticas de produção intelectual; elas impõem seu universalismo abstrato ao pluralismo real dos discursos e das práxis intelectuais vigentes na universidade e fora dela. As instituições encarregadas de produzir conhecimento humanístico manejam orçamentos que, sem serem os mais robustos do sistema universitário brasileiro, não podem, ainda assim, considerar-se insignificantes. Trata-se de orçamentos conformados com dinheiro público acumulado através da cobrança de impostos majoritariamente regressivos a populações empobrecidas. Estes recursos têm sido aplicados, frequentemente, no estímulo de uma dinâmica universitária tendente a afastar estudantes e professores da problematização dos dilemas reais suscitados pela vida democrática em nosso país. Na prática, os chamados “problemas de investigação” acabam sendo inventados nos corredores da academia – ou importados dos debates prestigiosos e “de ponta” do norte global – para serem “resolvidos” no “lado de fora empírico”, com as “pessoas comuns” e depois convertidos em digressões que atendem apenas à agenda editorial vigente no mercado das publicações acadêmicas. Como se não bastasse, o dinheiro público destinado à formação de jovens pesquisadores no exterior é por vezes “investido” na perpetuação da subalternidade epistêmica das academias do sul global mediante editais que reiteram regimes de legitimidade científica diretamente coloniais.

Com a hegemonia da quantificação na elaboração dos sistemas de avaliação científica, cada vez menos a universidade poderá ser concebida como espaço de estímulo ao florescimento de “ciências sociais de outra forma”, baseadas no sentido de responsabilidade e colaboração em pesquisa, no cultivo de vínculos duradouros e qualificados com comunidades e sujeitos e na articulação entre problemáticas investigativas e dilemas socialmente compartilhados. Nossos prestigiosos programas de pós-graduação mais se assemelham organismos autistas, imersos em transe profundo, alheios a qualquer preocupação com a importância social do conhecimento científico. O que parece dinamizar a produção de conhecimento é a própria vontade de produzir racionalizada e eficientemente. Grosso modo: produção pela produção. Eis o círculo virtuoso (ou seria círculo vicioso?) do saber.

O que fazer num cenário em que a quase totalidade da produção de conhecimento promovida pelas ciências sociais e humanas encontra-se submetida a um estandarte geral de avaliação caracterizado pela (in)determinação quantitativa de toda a qualidade? Michael Eisen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, que reagiu positivamente às criticas levantadas por Randy Schekman nas vésperas da entrega do Nobel, sugere a criação de sistemas alternativos de legitimação das práticas intelectuais. Para ele, todos os cientistas deveriam “atacar o uso das publicações para avaliar os pesquisadores, fazendo-o sempre que possível quando contratarem cientistas para o seu próprio laboratório ou departamento, quando revisarem as solicitações de financiamento ou julgarem os candidatos para uma vaga” (ver matéria no El País). Mais próximos de nós, os estudantes de mestrado em Antropologia Social da UFRGS, que paralisaram suas atividades acadêmicas na primavera de 2011 para questionar o produtivismo e as genealogias institucionais estabelecidas também oferecem uma alternativa: “paremos para pensar”. Esta, que foi a consigna da sua greve, nos alenta com a perspectiva de que a desestabilização da engrenagem produtivista é possível através da conformação de uma ética e de uma prática intelectual alternativa. Ao comentar a greve dos estudantes de Porto Alegre, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos concluiu o seguinte: “O vosso movimento (…) é parte dessa sociologia das emergências, porque é gente que está em busca de uma renovação epistemológica, política e o faz entre si, em pequenos grupos. Certamente os meios de comunicação não noticiaram, certamente não foi útil para o currículo deles ou para o programa de estudos deles, mas estão a emergir outras realidades” (entrevista completa na Tinta Crítica).

Talvez estas práticas “dissidentes” sejam um caminho para explorar novas lealdades e alianças políticas que conduzam a vias alternativas de legitimação da produção intelectual. O desafio, portanto, é erigir espaços profissionais dignos e reconhecidos mais além das aparelhagens institucionais produtivistas, de forma a superar as tentativas de epistemicídio e abrir passagem à proliferação de práticas intelectuais indisciplinadas, ecumênicas e participativas. Assumindo tal postura, corremos o risco de perdermos, num primeiro momento, o aval dos números, dos mercados editoriais e da tecnocracia, mas ganhamos um valioso terreno para construir objetividade e provar a validade dos nossos postulados: a práxis humana. Neste terreno pode vicejar uma ciência sucessora, amparada em novas redes de diálogo em política; uma ciência aberta a programas de investigação nos quais a verdade reside, parafraseando novamente a Boaventura de Sousa Santos, naquele conhecimento “que nos guia conscientemente e com êxito na passagem de um estado de realidade para outro estado de realidade”.

A tarefa parece hercúlea e certamente nem todos os pesquisadores estarão interessados em aceitá-la. Uma coisa, no entanto, é certa: ao desenvolver investigações, emitir laudos de demarcação de terras indígenas, frequentar eventos acadêmicos, escrever textos, produzir imagens, enunciar discursos políticos, etc. os cientistas sociais incorporam e colocam em ato suas disciplinas. E é por esta mesma via que também estão em condições de colocá-las em questão, disputando seus efeitos e funções. Nós podemos, portanto, atuar no registro da reprodução, abastecendo o aparelho disciplinar herdado, ou podemos bloquear a atualização de certas dinâmicas produtivas, exercendo uma reflexão crítica e pragmática a respeito das ferramentas político-institucionais disponíveis à ação transformadora.

Alex Moraes
É antropólogo, realiza estudos de doutorado no Instituto de Altos Estudios Sociales (Buenos Aires) e faz parte da Rede de Antropologia Crítica.