O uso da cláusula CC Não-Comercial prejudica a Ciência Aberta

Ni!

Cares colegas,

Este post é uma reação pessoal frente à uma recente declaração favorável ao uso de licenças com cláusula NC (não-comercial) para publicações em acesso aberto, como forma de combater o domínio dos grandes conglomerados editorais.

Diante disso, me parece importante lembrar que a indústria editorial é a maior proponente das licenças NC. Se foi a duras penas que a comunidade de acesso aberto evitou que essa licença favorita das, e favorável às, grandes editoras se estabelecesse como regra, os esforços destas não cessaram.

Esse favoritismo vem de uma consciência por parte delas de que preservar uma parte qualquer do monopólio sobre o uso de obras acadêmicas significa preservar vias para a mercantilização do conhecimento.

Por isso afirmo que a Elsevier deve estar contentíssima com essa declaração recente. Mais contente ainda por não ter sequer pago os envolvidos para defender seus interesses.

A situação não é nem mesmo exclusiva do acesso aberto. Como vemos na música ou cinema, quando forçados a aceitar algo diferente de todos os direitos reservados, os grandes conglomerados favorizam as licenças com cláusulas não-comerciais.

Eles entendem bem a lógica do capital, que não é o comércio, mas a exclusão. Aonde há exclusão, há potencial de mercantilização e exploração.

Algumas observações que esclarecem isso no caso em questão:

1) Quando falamos de escolha de licença, estamos falando da “licença para o público geral”. Grandes editoras não são o público geral. Elas tem dinheiro para comprar qualquer permissão que necessitem, ou os advogados, juízes e políticos necessários para formar e burlar as regras que lhes convém. E, em último caso, elas pagarão as multas ou indenizações que conseguirem passar pelo calvário da justiça, e cujo pagamento já estava previsto na precificação dos seus produtos.

2) Essa defesa da cláusula NC se apóia em parte no fato de numerosas revistas na América Latina serem hoje organizadas por instituições públicas e associações científicas. Assim também eram organizadas grande parte das revistas científicas mundiais antes das grandes editoras as comprarem. E elas apenas não compraram as revistas latino americanas por não verem valor econômico: além de têm baixo impacto internacional, as editoras já sugam a pouca seiva que têm os países aos quais essas revistas interessam.

2.1) Uma licença NC na prática só aumenta o motivo econômico para adquirir uma revista, pois permite formas de exclusão e portanto valor enquanto mercadoria. Por exemplo, uma vez adquirida, a licença NC facilita ao mais forte excluir o mais fraco (ver ponto 1) da concorrência na provisão de serviços agregados, pela própria cláusula NC e por meios técnicos independentes do copyright, como limites de volume de acesso.

2.2) Não dá para considerar a realidade político-econômica da américa latina hoje e achar que a comunidade acadêmica da região tem cacife para aguentar a pressão no dia em que as grandes editoras tiverem motivo econômico para comprar suas revistas. Especialmente dado que as revistas latino americanas que atingem alguma relevância global já vem sendo incorporadas. Num prazo médio em quer perdure a atual conjuntura, não me espantaria até o SciELO ser vendido, caso desperte o interesse.

3) Talvez o ponto mais crítico, pra não dizer triste: o principal, para não dizer o único, argumento da declaração para justificar a cláusula NC trata de defender contra “motores de busca”, “descobridores” e serviços agregados em geral. Isso mostra um grave desconhecimento das realidades legal e econômica envolvidas. Uma licença NC não vai impedir nenhum ator, “comercial” ou não, de prover uma grande parte desses serviços, em particular os dois citados explicitamente.

3.1) Lembre-se que o Google indexa e fornece inúmeros serviços analíticos sobre a Web. E lembre-se que 99% da Web tem *todos* os direitos reservados. Fica a sugestão do quão efetiva será na prática uma licença NC para o que a declaração pretende.

3.2) Ademais, qualquer luta contra esses usos, e particularmente a adoção de restrições NC, corre o risco de autossabotagem. Pois a possibilidade de mineração de texto e dados sem autorização prévia interessa, principalmente, à comunidade científica, que está longe de conseguir exceções universais “para uso acadêmico” e que, mesmo se conseguisse, seguiria longe de ter a competência e os recursos para realizá-lo na escala da própria demanda, sem parcerias com atores de mercado com compromisso pró-abertura.

Isso nos remete a essa questão: em termos de força para equiparar as ofertas de serviços das grandes editoras, as licenças NC deixam a academia e sociedade civil impedidas de colaborar com iniciativas de empreendedorismo pró-abertura, e dificultam a concorrência de pequenos e médios empreendimentos com compromisso acadêmico (i.e. ContentMine, que inovou com uma cláusula pétrea pró-abertura no seu contarto social), que não terão o capital jurídico para prevalecer contra o risco de ataques, inclusive ataques das grandes editoras que serão as primeiras e melhores a se aproveitar do NC para afogar a competição.

Em suma, eu não vejo como a adoção de licenças com cláusula NC fariam qualquer bem nesse contexto, que não seja na escala de tempo a mais míope. E, estando enganado, não vejo em absoluto como esse suposto bem seria maior do que o conjunto conhecido de males e contradições.

Nem é preciso falar do o custo político e de mobilização de se quebrar o discurso do acesso aberto em dois, dando munição para as grandes editoras defenderem uma licença que já defendem pois lhes convém. Igualmente não há necessidade de discutir que adotar uma licença incompatível com o acesso aberto internacionalmente estabelecido será mais um fator de opacidade do resto do mundo à produção acadêmica da américa latina.

Abordando o problema em termos mais gerais, o fato é que direito autoral é o instrumento errado para levar essa luta.

Isso não é, nem foi, evidente de imediato. Mas em repetidas iterações esclareceu-se que, para os interesses mesmo de médio prazo da ciência, além de se livrar das cláusulas NC e ND (não-derivados), era interessante mesmo evitar a cláusula SA (CompartilhaIgual) para publicações e, para dados científicos, preferir o domínio público.

Há, pour outro lado, instrumentos adequados para essa luta. E é temerário que essa declaração nem sequer os menciona. Uma declaração com sentido e impacto positivo para os fins propostos, ao invés de negativo, seria conclamar o dito “sistema latino americano de acesso aberto” a:

A) Integrar-se com urgência aos bancos de dados CrossRef e OrcID. Estes são os dois principais esforços que ameaçam materialmente o monopólio das grandes editoras sobre os ditos “serviços agregados”.

B) Financiar infraestruturas e pesquisas acadêmicas em consórcios para o desenvolvimento de serviços agregados ao acesso às publicações e dados, em parceria com o setor privado local pró-abertura.

C) Reforçar, inclusive por mandatos institucionais, o uso de licenças permissivas (CC-BY para publicações, CC-Zero para dados) que nivelem o jogo e garantam que toda a sociedade terá a possibilidade de fruir do conhecimento produzido, sem privilegiar quem tem capital jurídico-econômico, e independentemente de quem controlar as instituições no futuro.

* Este texto foi originalmente uma mensagem na lista Ciência Aberta, onde o assunto vinha sendo discutido.


* Por completeza, incluo aqui uma interessante pergunta do Andre Appel.

Andre L Appel disse:

    Vendo a resposta do Ale, me pergunto por que a própria comunidade criou a modalidade NC se esta é assim tão prejudicial à própria comunidade!?

    (Sim, é pergunta retórica. Vou pesquisar 🙂 )

Ni! Legal Andre, imaginando que você já teve tempo para suas pesquisas… 😉 faço um acréscimo.

Não foi a comunidade de acesso aberto quem criou as cláusulas das licenças creative commons, foi uma organização, a Creative Commons, liderada por advogados e cujo objetivo é fornecer instrumentos jurídicos genéricos para a flexibilização dos direitos de autor. Como eles dizem, “some rights reserved”.

Vale observar que a própria Creative Commons, enquanto oferece um espectro de licenças, etiqueta as suas licenças para diferenciar as livres das não livres. As licenças com as cláusulas NC ou ND (não-derivados) não recebem a etiqueta de licença livre.

Mas não se deve ignorar que as licenças contendo as cláusulas NC ou ND são em todo caso melhores que “todos os direitos reservados” e, ademais, podem ser úteis numa transição para licenças livres onde esse for o objetivo.

Contudo, a cláusula NC impacta negativamente o acesso aberto, uma vez que essa comunidade já conseguiu, em grande medida e em particular lutando contra os esforços pró-NC das grandes editoras, estabelecer licenças livres como padrão, e nesse estado a cláusula NC representa um retrocesso, pelas razões previamente expostas.

Lembrando que as grandes editoras não defendem a cláusula NC por vocação última. Elas querem “todos os direitos reservados”. Elas defendem a NC apenas aonde a maré já virou para o acesso aberto, levando-as a analisar esse novo contexto e tanto quanto possível puxar a corda para o seu lado – o lado da exclusão e da mercantilização do conhecimento.

LATmetrics: Altmetria e Ciência Aberta na América Latina

Entre os dias 28 e 30 de novembro de 2018, a cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, receberá a primeira edição do LATmetrics – Altmetria e Ciência Aberta na América Latina. O evento internacional será realizado na Universidade Federal Fluminense visa promover o debate sobre o uso de métricas alternativas para a circulação da ciência e práticas científicas abertas no território latino-americano.

O I LATmetrics surge em um momento de efervescência tanto para a comunicação científica quanto para a geografia da ciência. Mídias sociais e outros espaços digitais têm sido cada vez mais usados por pesquisadores e instituições para o compartilhamento de suas pesquisas com a sociedade, mudando a forma como medimos o impacto social da produção acadêmica. Novas oportunidades e uma série de desafios se impõem aos países periféricos, visto que a cobertura e a qualidade dos dados sobre métricas alternativas não costumam ser compatíveis com as dinâmicas da comunicação científica desenvolvidas nesta região.

Diante desse panorama, pesquisadores de diversas áreas do conhecimento se reunirão pela primeira vez para compartilhar os avanços da pesquisa sobre altmetria e da ciência aberta no contexto latino-americano. Voltado para pesquisadores, avaliadores da ciência, agentes de decisões de políticas públicas, bibliotecários, instituições de pesquisa, estudantes e demais interessados, o I LATmetrics discutirá temas relacionados à circulação científica nos espaços sociais digitais, à cobertura de dados e ao impacto da ciência para a sociedade.

A chamada para submissão de resumos estará aberta até dia 30 de julho.

Esperamos receber submissões para o seguintes eixos, não se limitando a eles:

  • Cobertura de dados na América Latina

  • Ciência aberta na América Latina

  • Métricas alternativas (altmetrics) na América Latina

  • Circulação e divulgação científica

  • Ciência e sociedade – interações públicas com a ciência

  • Políticas públicas e políticas científicas

  • Estudos bibliométricos e avaliação da produção científica

  • Aquisição de financiamento

  • Construção de colaborações de pesquisas internacionais

  • Avaliação da produção científica em línguas não-inglesas

  • Artes e humanidades: avaliação dos resultados da pesquisa não tradicional

O formulário para submissão de propostas está disponível neste link.

Para saber mais, visite nosso site: https://www.latmetrics.com

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Cadê as pessoas no UEADSL2018.1?

Publiquei este material no fórum de notícias do evento. Apareçam, está muito interessante: http://ueadsl.textolivre.pro.br


Este gráfico mostra as visualizações por tipos de acesso (a linha superior é a soma de todos, as outras correspondem a ouvinte (participante não inscrito no evento), participante (autor, coordenador de mesa e público inscrito) e professor (membros da Comissão Científica e Organizadora).

O primeiro dia do UEADSL segue o padrão dos outros anos, sendo bem movimentado. Na quarta e na quinta mantém-se estável, com um ótimo número de visualizações por participantes inscritos, uma maior participação de professores e diminuição do público ouvinte que chamamos de mudo, pois só observa e não participa com comentários. O gráfico mostra que as pessoas que por aqui passaram no dia 25 visualizaram, no total, 4079 páginas, um número recorde de visualizações no mesmo dia, na história do UEADSL desde 2010. O recorde anterior era de 29 de novembro de 2017, no UEADSL2017.2, quando tivemos 2575 visualizações num único dia.

No Moodle tornou-se mais fácil distinguir as visualizações conforme o foco, por meio da análise dos logs por dia. Podemos, portanto, saber exatamente quantas vezes as páginas do Anfiteatro, exclusivamente, foram acessadas só ontem: 1900 vezes, das quais somente 304 feitas por visitantes não logados.

Imagine só: em média, um participante como você visitou 98 locais diferentes só no dia de ontem e somente contando os espaços do bloco de programação e Anfiteatro. No anfiteatro, que possui 53 salas de apresentação de trabalhos, o trânsito de pessoas por sala ficou em 35 e cada trabalho recebeu, em média, 2,6 comentários. Parece normal, imagine uma sala com 36 pessoas assistindo seu trabalho e 3 delas fazendo pergunta no final: uma boa apresentação de trabalho, não?

Agora, lembremo-nos que os trabalhos no UEADSL ficam todo o tempo sendo apresentados e discutidos. Até ontem, já alcançamos uma média de 147 pessoas assistindo e 7,1 comentários em cada trabalho:

E só tende a aumentar, em geral até domingo.

Então, se você acha que o evento está vazio, se liga: a grande vantagem do evento ser online e assíncrono é que eu posso ir ali tranquilamente buscar um café e continuar assistindo a comunicação exatamente de onde parei, sem perder nada e nem tendo que tropeçar nas pessoas para conseguir um biscoitinho 😀 Mas as pessoas estão aqui, com certeza!

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UEADSL2018.1 – O Congresso Nacional Universidade EAD e Software Livre começa nesta Segunda, dia 25/6

O UEADSL (http://ueadsl.textolivre.pro.br) é o primeiro REA dinâmico do qual temos notícia, um evento criado a ensinar e aprender diferentes processos da vida acadêmica, num conjunto de ações que capacitam a todos os participantes, dos membros das comissões até o público, de forma colaborativa. Alia professores-pareceristas  e estudantes-autores, universitários de graduação e pós-graduação, de diversos estados brasileiros: UFMG, UFVJM, FURG, IFES, UNEB, UNIFAL, UNEB e UNINTA são as universidades participantes neste semestre, com cursos de Humanas, Biológicas e Exatas e temas variados.
A participação no UEADSL é aberta, sem custos e, como o evento é assíncrono, só precisa que você acesse o site, leia os artigos ou assista às conferências convidadas, comentando-os no horário que melhor lhe aprouver. Basta realizar seu cadastro no site para ter permissão para realizar comentários em, pelo menos, 3 apresentações diferentes e, assim, receber seu certificado de participação.
O UEADSL é promovido semestralmente pelo Grupo de Pesquisa, Ensino e extensão Texto Livre: Semiótica e Tecnologia, com o apoio da FALE e do CAED da UFMG.
Participe!
Respeitosamente,
Comissão Organizadora do UEADSL2018.1
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OpenCon 2018 em Toronto – inscrições abertas!

OpenCon2018
Ni!

A OpenCon é uma das principais conferências internacionais sobre ciência aberta, voltada para jovens pesquisadores, estudantes e profissionais interessados em acesso aberto, educação aberta, dados científicos abertos. Todo ano ela busca levar uma grande diversidade de participantes para o evento internacional, além de estimular a organização de eventos locais.

Este ano a conferência ocorre do dia 2 ao 4 de novembro em Toronto, no Canadá. Como nos anos anteriores, a organização oferece bolsas para custear despesas de transporte e estadia dos participantes.

As inscrições estão abertas até dia 13 de julho no endereço:

https://apply.opencon2018.org/referral/em06121

Abraço,
l
e
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Dados online e Privacidade na WWW

Até janeiro de 2012, o Google tinha um conjunto de aplicativos online disponíveis para uso gratuito, sendo necessário ter uma conta em cada um (normalmente criada voluntariamente por nós para cada produto usando nossa conta do gmail). Assim, se eu não quisesse participar do Google Mais, não participava, e assim por diante. Já naquela época eu, usuária do gmail desde poucos meses depois que ele foi criado, me incomodava com as propagandas que, na página do gmail, mostravam claramente que o gmail “lia” minhas correspondências, pois dependendo do assunto que me movimentava na semana, as propagandas mudavam. Essa “leitura”, que continua existindo, de forma cada vez mais invasiva, mais eficiente (dependendo do ponto de vista) e mais sofisticada, corresponde a uma mineração semântica inteligente de todos os dados que forem disponibilizados na rede pelo usuário, inclusive imagens, sons etc.

Lembro que o Fred Guimarães, criador do SLEducacional, já no primeiro Dia da Cultura Livre, promovido pelo Texto Livre em 2010, nos alertava para os rumos que a política do Google tomava em relação à privacidade e a maioria de nós ouvia mais com curiosidade do que com preocupação as palavras daquele que parecia ser radical demais. Mas não era.

Depois desse dia fui ler de novo, com mais atenção, os termos de uso do gmail, e concluí que mesmo os documentos anexos, ao passarem pelo gmail, passavam a ser propriedade da empresa. Imagine só: todos os documentos trocados pelos professores, alunos e funcionários da UFMG, mesmo que a pessoa não usasse gmail, mas um destinatário sim, “legalmente” seriam propriedade da empresa. Melhor dizendo: ilegalmente, já que os documentos da UFMG são da UFMG por direito. Mas, como todos nós concordamos com os termos de uso quando usamos um software qualquer, concordávamos com essa ilegalidade e, caso houvesse um problema conosco por um documento que era da universidade e passou a ser do gmail (eu imagino mil situações em que isso poderia virar problema de tribunal), o Google, com certeza, estaria protegido, mas nós ficaríamos entre a frigideira e o fogo, ou seja quem fica vulnerável é o usuário.

Em fevereiro de 2012, o Google avisou a todos os usuários que integraria todas as contas numa só e que, se não concordássemos em ser usuário de qualquer um de seus produtos, tínhamos 30 dias para encerrar a conta, ou o uso dela caracterizaria aceite das novas normas. Eu? Não queria usar o Google Drive, muito menos o Google Mais, e qual quer outro produto além do e-mail e da agenda. Passei o mês maluca, entre preparar disciplinas do semestre, organizar o Texto Livre e tentar achar uma solução para sair do gmail. Porquê? Porque eu trabalho com e-mail (e com a agenda integrada do google), 70% daquilo que preciso acontece lá e simplesmente fechar a conta em que eu centralizava tudo seria um desastre, podia contar que o ano estaria todo comprometido, sem exageros. Perdi todas as horas que pude em busca de uma solução e não achei. Resolvia o e-mail, que era o mais fácil, mas perdia toda a agenda. As melhores soluções livres que encontrei seriam para ter a agenda e o e-mail no computador, mas isso acarretaria um trabalho extra enorme para atualizar tudo, sem contar com a questão de espaço físico no disco, haja espaço!

Muito a contragosto, continuei no Gmail e continuo até hoje. Cada vez que digito uma mensagem, estou fornecendo dados sobre mim mesma para essa empresa. Consciente da opressão que sofro, sou ainda incapaz de resolver o problema. Ainda estou procurando tempo para encontrar uma solução.

Um produto do Google eu passei a usar por conveniência, o Youtube. Mas deixei de usar o Google para buscas online. Porque? Simplesmente porque o Google me conhece tanto que qualquer busca que eu faça na internet vai, em última análise, trazer mais de mim mesma, ou seja, ele decide o que quero a partir dos temas que costumo frequentar eme impede de conhecer coisas novas, realmente novas. Hoje eu uso o DuckDuckGo.com, “the search engine that doesn’t track you”:

Bem, esta semana recebi uma mensagem do Goole, com conteúdo semelhante a outra recebida hoje, do ORCID: estão mudando as regras porque uma lei européia (General Data Protection Regulation) exige agora maior clareza dos termos de uso (já não era sem tempo!). Talvez, com isso, mais pessoas leiam as licenças antes de fechar os contratos.

A pergunta que não quer calar: toda vez que instalamos um aplicativo no celular, concordamos que ele acesse pelo menos parte importante de nossos dados. Cadê os termos de uso discriminados e completos? Onde estamos nos metendo? O que será feito disso? Como isso poderá nos afetar?

A meu ver, estamos assinando papéis em branco e dando de presente a essas empresas que, como o Google, nem na minha mais alucinada ilusão ingênua eu poderia pensar que vão fazer algo que possa me defender contra elas. Até onde sei, somos indivíduos com direito à privacidade estabelecida por lei. Se os dados da ciência devem ser abertos, os dados pessoais não, exceto com nossa aprovação explícita e ratificada a cada situação em que isso puder acontecer. Muito menos, devem deixar de ser nossos simplesmente porque usamos um software ou aplicativo: deveria ser um direito inalienável. Então, se nosso direito está sendo roubado, no mínimo precisamos ter consciência disso e, sem dúvidas, este deveria ser um tópico indispensável de qualquer trabalho de letramento ou inclusão digital.

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Conferência SciELO 20 Anos

Ni!

A Conferência SciELO 20 Anos abordará e debaterá – em três dias de programação – as principais questões políticas, metodológicas e tecnológicas assim como as tendências que definem o estado da arte da comunicação científica. Essas questões moldarão o futuro universal da publicação científica aberta e as relações com os periódicos em Acesso
Aberto de hoje, em especial os da Rede SciELO. Um dos tópicos de interesse será o alinhamento dos periódicos e a operação do SciELO com as práticas da ciência aberta, como a publicação dos dados das pesquisas, o aceleramento dos processos editoriais e de comunicação por meio da publicação contínua dos artigos e adoção de *preprints*, maximização da transparência nos processos de avaliação e fluxos de comunicação, e a busca por sistemas mais abrangentes para a avaliação de artigos e periódicos.

Informações:
26 a 28 de setembro de 2018.
Tivoli Mofarrej São Paulo Hotel, Alameda Santos, 1437, Cerqueira César, São Paulo-SP
Contato: scielo20@scielo.org
http://www.scielo20.org

Open Science Training Handbook


Ni!

Acaba de ser publicada a versão 1.0 do Open Science Training Handbook, um manual escrito por quatorze membros super ativos em comunidades de ciência aberta.

https://open-science-training-handbook.gitbooks.io/book/content/

Além de ser potencialmente útil e de haver um grupo apoiando seu uso em treinamentos, trata-se de um trabalho colaborativo aberto à contribuições. Todos esses pontos estão explicados com instruções na introdução do livro.

Um abraço,

ale
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Seminário “Ciência Aberta, Ciência Cidadã, Ciência Comum”

Ni!

No próximo dia 12, quinta-feira, acontecerá o seminário Ciência Aberta, Ciência Cidadã, Ciência Comum, com apresentações dos pós-doutorandos o LIINC: Bia Martins, Anne Clinio e Henrique Parra, em debate com Miguel Said da UFABC.

Coordenadas: Dia 12 de abril de 2018 das 14:00 às 17:00 no Auditório Manuel Maurício de Albuquerque, Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, campus da Praia Vermelha, Rio de Janeiro.

Imperdível!

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Lançando uma revolução no acesso às ferramentas científicas

Comunidade global envolvendo mais de 30 países clama pelo acesso livre ao hardware científico.

Mais de 100 cientistas, engenheiros, educadores, empreendedores e agentes comunitários de 30 países publicaram um relatório que descreve os passos necessários para facilitar o acesso ao hardware utilizado para fins científicos até 2025 com base em design aberto, desenvolvimento colaborativo e novas técnicas de fabricação.

Global Open Science Hardware Roadmap

O grupo, que se reuniu no CERN, em Genebra, e na Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago em 2017, argumenta que muito poucas pessoas tem acesso às ferramentas necessárias para a prática científica, particularmente os pesquisadores em países em desenvolvimento e grupos comunitários que necessitam coletar e analisar dados sobre o seu ambiente. De microscópios à microfluidos e estações de monitoramento de água, eles fazem parte de um movimento crescente de compartilhamento online de projetos abertos os quais qualquer pessoa pode livremente utilizar, modificar e até mesmo comercializar. O grupo responsável por este documento sugere que este enfoque pode reduzir drasticamente os custos de pesquisa ao permitir maior colaboração e formas de aprender de novas maneiras. “Nosso projeto,” afirma um dos autores Dr Luis Felipe R. Murillo do Instituto Ciência, Inovação e Sociedade da França, “é sustentado pelo objetivo compartilhado de criar conhecimento comum através da participação pública direta em ciência e tecnologia. Não se trata de uma crítica apartada, mas de uma forma de engajamento prático”.

Os autores e as autoras do Global Science Hardware Roadmap descrevem os passos que acreditam serem necessários para ajudar a esta comunidade avançar, incluindo maior apoio institucional das universidades e centros de pesquisa, fontes de financiamento e governos que preferem os inventores apliquem patentes sobre suas invenções de hardware. A Dr. Max Liborion, colaboradora do documento, relata em um artigo acadêmico recente as suas tentativas de assegurar que o seu dispositivo de baixo custo para amostragem de contaminação por micro-plásticos seja livremente acessível para as comunidades indígenas do Noroeste do Canadá com as quais trabalha. Muitos outros também defendem que o livre compartilhamento é compatível com a venda de produtos e pode, de fato, criar novas oportunidades para empreendedores. Jorge Appiah, um engenheiro e inovador que fundou o makerspace Kumasi Hive em Ghana, acredita que o livre compartilhamento reduz os custos do empreendedorismo no contexto Africano e viabiliza “a rápida escala de soluções de impacto com a localização das inovações, suas aplicações e avanços incrementais”. Esta abordagem é adotada por mais de quinze startups que estão produzindo hardware aberto e livre para ciência.

O relatório também defende a necessidade de assegurar o controle de qualidade e o cumprimento de padrões, particularmente importante para garantir a reprodutibilidade da pesquisa científica, uma preocupação crescente nos últimos anos. Licenciamento, documentação de alta qualidade e aspectos sociais e éticos da prática científica também são abordados. “As ferramentas científicas não são peças de tecnologia esotéricas e entediantes que não possuem conexão com a nossa vida cotidiana. Quem as utiliza, como elas são utilizadas e os resultados obtidos podem afetar no desenvolvimento de novos medicamentos, respostas à desastres ambientais e para educar a próxima geração de cientistas e tecnologistas: precisamos adotar uma perspectiva mais ampla” afirma Dr. Jenny Molloy da Universidade de Cambridge.

As comunidades que usam e desenvolvem hardware aberto são mais amplas do que se acredita. O documento apresenta projetos acadêmicos tais como “White Rabbit”, uma tecnologia aberta desenvolvida no CERN que tem o trabalho difícil de assegurar precisão de sub nanosegundo nas transferências de dados do acelerador de partículas, LHC e o OpenFlexure Scope, um microscópio criado por impressão 3D que usa uma câmera de baixo custo com Raspberry PI e que recentemente recebeu o “Grand Challenges Research Fund” do Governo do Reino Unido.

Hardware científico aberto é também utilizado pela população em projetos de ciência comunitária: Rede InfoAmazonia é um projeto que trabalha com uma rede de comunidades brasileiras para construir sensores de qualidade de água e enviar alertas de contaminação via SMS, enquanto projetos como EnviroMap e UTBiome mapeiam ecologia microbiana e dados ambientais com comunidades locais em Austin, Texas. Public Lab, uma organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos, reuniu cidadãos para mapear o derramamento de óleo no golfo do México (também conhecido pelo nome em Inglês: “Deep Horizon Oil Spill”) em 2010 e continua a trabalhar ao redor do mundo com comunidades locais que sofrem com contaminação industrial usando kits de baixo custo e livre acesso que são aprimorados por voluntários.

Existem esforços para disseminar os benefícios de hardware aberto e livre globalmente. O Centro de Tecnologia Acadêmica do Instituto de Física da UFRGS, por examplo, explora o potencial de Hardware Científico Aberto em atividades de extensão assim como para educação de engenheiros e em ciências. Rafael Pezzi, coordenador do CTA e co-autor do documento, enfatiza que existe um grande potencial para ser explorado no Hardware Científico Aberto desde o ensino médio até o universitário: “pode ser visto como uma plataforma de atividades práticas e colaborativas para alunos de engenharia”. O projeto TReND África tem conduzido oficinas para pesquisadores africanos sobre como construir suas próprias impressoras 3D e seus próprios equipamentos de laboratório por uma fração de até 1% do custo das alternativas comerciais, garantindo controle sobre os instrumentos e os desenhos de pesquisa. A atividade no continente Africano aumentará substancialmente com o primeiro Africa Open Science and Hardware Summit que irá ocorrer em Ghana em 2018. Hardware para ciência aberta é uma ferramenta poderosa para reduzir o hiato entre teoria e prática no ensino médio Africano, mas devemos tomar cuidado com o neocolonialismo gerado pela tecnologia” pondera o co-organizador do evento e autor do documento Thomas Herve Mboa Nkoudou, que é o presidente da Associação para a Promoção de Ciência Aberta no Haiti e África (APSOHA – Association for the Promotion of Open Science in Haiti and Africa).

Ao lançar este chamado em busca de apoio, o grupo planeja continuar a seguir os seus planos de ampliar sua comunidade e o alcance e distribuição de hardware aberto através do Encontro Hardware Científico Aberto (GOSH) em 2018 em Shenzhen, China, declarada como “cidade criativa” de acordo com a UNESCO e que tem sido descrita como o “Silicon Valley” do hardware.

Nota para editores:

Para mais informações contate Shannon Dosemagen, Luis Felipe Murillo, Jenny Molloy e Rafael Peretti Pezzi através do email: roadmap (arroba) openhardware.science

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