A ideia de que o conhecimento científico, de todos os tipos, deve ser compartilhado abertamente tão cedo quanto praticável no processo de descoberta. —Michael Nielsen
Autor: Rafael Pezzi

Comunidade global envolvendo mais de 30 países clama pelo acesso livre ao hardware científico.

Mais de 100 cientistas, engenheiros, educadores, empreendedores e agentes comunitários de 30 países publicaram um relatório que descreve os passos necessários para facilitar o acesso ao hardware utilizado para fins científicos até 2025 com base em design aberto, desenvolvimento colaborativo e novas técnicas de fabricação.

Global Open Science Hardware Roadmap

O grupo, que se reuniu no CERN, em Genebra, e na Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago em 2017, argumenta que muito poucas pessoas tem acesso às ferramentas necessárias para a prática científica, particularmente os pesquisadores em países em desenvolvimento e grupos comunitários que necessitam coletar e analisar dados sobre o seu ambiente. De microscópios à microfluidos e estações de monitoramento de água, eles fazem parte de um movimento crescente de compartilhamento online de projetos abertos os quais qualquer pessoa pode livremente utilizar, modificar e até mesmo comercializar. O grupo responsável por este documento sugere que este enfoque pode reduzir drasticamente os custos de pesquisa ao permitir maior colaboração e formas de aprender de novas maneiras. “Nosso projeto,” afirma um dos autores Dr Luis Felipe R. Murillo do Instituto Ciência, Inovação e Sociedade da França, “é sustentado pelo objetivo compartilhado de criar conhecimento comum através da participação pública direta em ciência e tecnologia. Não se trata de uma crítica apartada, mas de uma forma de engajamento prático”.

Os autores e as autoras do Global Science Hardware Roadmap descrevem os passos que acreditam serem necessários para ajudar a esta comunidade avançar, incluindo maior apoio institucional das universidades e centros de pesquisa, fontes de financiamento e governos que preferem os inventores apliquem patentes sobre suas invenções de hardware. A Dr. Max Liborion, colaboradora do documento, relata em um artigo acadêmico recente as suas tentativas de assegurar que o seu dispositivo de baixo custo para amostragem de contaminação por micro-plásticos seja livremente acessível para as comunidades indígenas do Noroeste do Canadá com as quais trabalha. Muitos outros também defendem que o livre compartilhamento é compatível com a venda de produtos e pode, de fato, criar novas oportunidades para empreendedores. Jorge Appiah, um engenheiro e inovador que fundou o makerspace Kumasi Hive em Ghana, acredita que o livre compartilhamento reduz os custos do empreendedorismo no contexto Africano e viabiliza “a rápida escala de soluções de impacto com a localização das inovações, suas aplicações e avanços incrementais”. Esta abordagem é adotada por mais de quinze startups que estão produzindo hardware aberto e livre para ciência.

O relatório também defende a necessidade de assegurar o controle de qualidade e o cumprimento de padrões, particularmente importante para garantir a reprodutibilidade da pesquisa científica, uma preocupação crescente nos últimos anos. Licenciamento, documentação de alta qualidade e aspectos sociais e éticos da prática científica também são abordados. “As ferramentas científicas não são peças de tecnologia esotéricas e entediantes que não possuem conexão com a nossa vida cotidiana. Quem as utiliza, como elas são utilizadas e os resultados obtidos podem afetar no desenvolvimento de novos medicamentos, respostas à desastres ambientais e para educar a próxima geração de cientistas e tecnologistas: precisamos adotar uma perspectiva mais ampla” afirma Dr. Jenny Molloy da Universidade de Cambridge.

As comunidades que usam e desenvolvem hardware aberto são mais amplas do que se acredita. O documento apresenta projetos acadêmicos tais como “White Rabbit”, uma tecnologia aberta desenvolvida no CERN que tem o trabalho difícil de assegurar precisão de sub nanosegundo nas transferências de dados do acelerador de partículas, LHC e o OpenFlexure Scope, um microscópio criado por impressão 3D que usa uma câmera de baixo custo com Raspberry PI e que recentemente recebeu o “Grand Challenges Research Fund” do Governo do Reino Unido.

Hardware científico aberto é também utilizado pela população em projetos de ciência comunitária: Rede InfoAmazonia é um projeto que trabalha com uma rede de comunidades brasileiras para construir sensores de qualidade de água e enviar alertas de contaminação via SMS, enquanto projetos como EnviroMap e UTBiome mapeiam ecologia microbiana e dados ambientais com comunidades locais em Austin, Texas. Public Lab, uma organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos, reuniu cidadãos para mapear o derramamento de óleo no golfo do México (também conhecido pelo nome em Inglês: “Deep Horizon Oil Spill”) em 2010 e continua a trabalhar ao redor do mundo com comunidades locais que sofrem com contaminação industrial usando kits de baixo custo e livre acesso que são aprimorados por voluntários.

Existem esforços para disseminar os benefícios de hardware aberto e livre globalmente. O Centro de Tecnologia Acadêmica do Instituto de Física da UFRGS, por examplo, explora o potencial de Hardware Científico Aberto em atividades de extensão assim como para educação de engenheiros e em ciências. Rafael Pezzi, coordenador do CTA e co-autor do documento, enfatiza que existe um grande potencial para ser explorado no Hardware Científico Aberto desde o ensino médio até o universitário: “pode ser visto como uma plataforma de atividades práticas e colaborativas para alunos de engenharia”. O projeto TReND África tem conduzido oficinas para pesquisadores africanos sobre como construir suas próprias impressoras 3D e seus próprios equipamentos de laboratório por uma fração de até 1% do custo das alternativas comerciais, garantindo controle sobre os instrumentos e os desenhos de pesquisa. A atividade no continente Africano aumentará substancialmente com o primeiro Africa Open Science and Hardware Summit que irá ocorrer em Ghana em 2018. Hardware para ciência aberta é uma ferramenta poderosa para reduzir o hiato entre teoria e prática no ensino médio Africano, mas devemos tomar cuidado com o neocolonialismo gerado pela tecnologia” pondera o co-organizador do evento e autor do documento Thomas Herve Mboa Nkoudou, que é o presidente da Associação para a Promoção de Ciência Aberta no Haiti e África (APSOHA – Association for the Promotion of Open Science in Haiti and Africa).

Ao lançar este chamado em busca de apoio, o grupo planeja continuar a seguir os seus planos de ampliar sua comunidade e o alcance e distribuição de hardware aberto através do Encontro Hardware Científico Aberto (GOSH) em 2018 em Shenzhen, China, declarada como “cidade criativa” de acordo com a UNESCO e que tem sido descrita como o “Silicon Valley” do hardware.

Nota para editores:

Para mais informações contate Shannon Dosemagen, Luis Felipe Murillo, Jenny Molloy e Rafael Peretti Pezzi através do email: roadmap (arroba) openhardware.science

No próximo dia 4 de novembro, às 10 horas, receberemos, no Ibict/Rio, Bruce Perens para apresentação e conversa sobre “Open Source e Open Hardware na Ciência Aberta e Inovação“.

O evento é realizado pelo Ibict/Coordenação de Ensino e Pesquisa e o Liinc – Laboratório Interdisciplinar sobre Informação e Conhecimento, com o apoio da Unesco.

(Antes Bruce Perens participa também no primeiro e-HAL, o Encontro Brasileiro de Hardware Aberto e Livre (http://e-hal.org.br/), em São Paulo.)

O open hardware é hoje considerado elemento chave nas infraestruturas de ciência aberta e de inovação, bem como da chamada “economia colaborativa”.

Bruce Perens é reconhecido mundialmente por ter sido um dos fundadores da iniciativa open-source a partir do movimento de software livre surgido nos EUA em meados de 1980. Bruce também é um dos pioneiros do movimento de hardware aberto e livre no mundo, tendo lançado em 1997 o programa de certificação (Open Hardware Certification Program). Com a rápida expansão do hardware aberto e livre a partir de meados dos anos 2000 com o lançamento de plataformas como Arduino e Sparkfun, Bruce se inseriu nas discussões promovidas pela conferência Open Hardware Summit, contribuindo principalmente no debate sobre as implicações legais de licenças permissivas para hardware.

DATA E HORÁRIO: dia 4 de novembro de 2016, 10 horas.
LOCAL: Auditório Oliveira Castro, no CBPF, Xavier Sigaud 150 – térreo, Urca, Rio de Janeiro (entrada também pela rua Lauro Muller 455).

O 1º Primeiro Encontro Brasileiro de Hardware Aberto e Livre (e-HAL) contará com a participação de Bruce Perens, um dos pioneiros das tecnologias livres e abertas. Sua vinda está garantida graças ao apoio do IBICT e UNESCO. As inscrições se encerram em breve, garanta seu lugar se inscrevendo em e-hal.org.br/inscricao. Consulte informações sobre caravanas partindo de sua cidade.

Sobre o Bruce

Bruce Perens é reconhecido mundialmente por ter sido um dos fundadores da iniciativa open-source a partir do movimento de software livre surgido nos EUA em meados de 1980, tendo escrito a definição de open source,  esboçado o primeiro contrato social da comunidade Debian e fundado a organização Open-Source Initiative (OSI). Bruce também é um dos pioneiros do movimento de hardware aberto e livre no mundo, tendo lançado em 1997 o programa de certificação (Open Hardware Certification Program), no qual fabricantes de hardware poderiam auto-certificar seus produtos como HAL. Com a rápida expansão do hardware aberto e livre a partir de meados dos anos 2000 com o lançamento de plataformas como Arduino e Sparkfun, Bruce se inseriu nas discussões promovidas pela conferência Open Hardware Summit, contribuindo principalmente com discussões a respeito de implicações legais de licenças permissivas para hardware, sendo considerado um especialista no assunto. Com sua experiência com processos judiciais em torno de software livre, Bruce Perens, como membro da associação de Radioamadores de Tucson (TAPR), contribuiu também diretamente para a elaboração da TAPR Open Hardware Licence com revisões e discussões com o autor John Ackermann, seu colega na TAPR.

A vinda de Bruce Perens para o Brasil permite a troca de experiências com acadêmicos, profissionais, empreendedores, entusiastas que se organizam em torno do assunto do hardware aberto e livre. Tendo cerca de 30 anos de reconhecida experiência trabalhando diretamente com tecnologias livres, abrangendo aspectos técnicos, legais e econômicos, Bruce Perens apresentará um panorama da questão de licenciamento de hardware livre no mundo, com as conquistas e desafios atuais, e debaterá o impacto das tecnologias livres em diversas áreas da sociedade, como empreendedorismo e pesquisa científica. Dentre os temas de discussão em que Bruce Perens se dispõe a debater com aprofundamento está a contribuição negativa dos mecanismos de patenteamento e licenciamento de tecnologias para a inovação.

O que mais acontecerá no e-HAL?

O e-HAL ocorre durante 3 dias, de 29 a 31 de Outubro de 2016 e contará com atividades dedicadas ao fortalecimento da cultura do hardware aberto e livre no Brasil e no mundo:

  • Palestras
  • Plenárias com Javier Serrano e Bruce Perens
  • Oficinas
  • Mesas redondas
  • Duas hackatonas
  • Sessão de pôsteres

Veja mais informações em e-hal.org.br.

Você tem alguma vivência/projeto relacionada(o) a Hardware Aberto e Livre para compartilhar com a comunidade? Inscreva sua palestra, oficina ou apresentação de pôster no site do evento.

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Estão abertas as inscrições para o Primeiro Encontro Brasileiro de Hardware Aberto e Livre (e-HAL) a ser realizado entre os dias 29 e 31 de Outubro de 2016 na USP e na PUC, em São Paulo, SP. O evento é organizado pelo Centro de Tecnologia Acadêmica / UFRGS (Porto Alegre/RS), pelo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (Campinas/SP) e pelo Garoa Hacker Clube (São Paulo/SP).

Serão 3 dias de atividades dedicadas ao fortalecimento da cultura do hardware aberto e livre no Brasil:

  • Palestras
  • Oficinas
  • Mesas redondas
  • Duas hackatonas
  • Sessão de pôsteres

Destaque para a presença de Javier Serrano, líder da seção de hardware para sincronismo e controle de aceleradores de partículas do CERN, co-autor da Licença de Hardware Aberto do CERN e criador do Repositório de Hardware Aberto.

O e-HAL será palco de duas hackatonas! A Hackatona de Libertação de Hardware será um verdadeiro esforço colaborativo de libertação de projetos propostos pelos participantes, com oficinas e suporte para as atividades. A Hackatona KiCad, vai aprimorar um dos principais softwares livres para o desenvolvimento de hardware aberto e livre, que contará com a presença de Tomasz Włostowski e Maciej Sumiński, engenheiros do CERN e desenvolvedores ativos do KiCad.

Veja mais informações sobre o evento em e-hal.org.br e garanta seu lugar se inscrevendo em e-hal.org.br/inscricao. Consulte informações sobre caravanas partindo de sua cidade no site do evento.

Você tem alguma vivência/projeto relacionada(o) a Hardware Aberto e Livre para compartilhar com a comunidade? Inscreva sua palestra, oficina ou apresentação de pôster no site do evento.

De <http://openhardware.science/wp-content/uploads/2016/05/GOSH2016_gahtering.png>

Os participantes do Primeiro Encontro de Hardware Científico Aberto e Livre, que ocorreu em Março de 2016 em Genebra, na Suiça, elaboraram o Manifesto GOSH (Global Open Science Hardware).

O manifesto estabelece os princípios de Hardware Aberto e Livre para Ciência Global (tradução livre), qualificando-o quanto a acessibilidade, qualidade de ciência, ética, transformação da cultura científica, entre outros. É um importante documento para guiar as novas gerações de cientistas e tecnologistas. Também é importante apontar para as transformações em curso da ciência no que se refere ao hardware, uma vez que até hoje a discussão de abertura ficou centrada na questão de acesso às publicações científica e aos dados científicos.

Acesse o manifesto em http://openhardware.science/gosh-manifesto/. Você também pode, assim como eu fiz, endossá-lo.

Domínio público - https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Earthlights_2002.jpg

A União Europeia está dando um salto nas questões de abertura de conhecimento. Acabou de ser publicado um estudo, na forma de livro intitulado Open innovation, open science, open to the world, disponível para download.

Este estudo foi encomendado ao Comissário Europeu para a Investigação, Inovação e Ciência pelo próprio presidente da União Europeia. Destaco que este estudo trás muitos dos elementos aplicados no Centro de Tecnologia Acadêmica do Instituto de Física da UFRGS desde sua fundação.

Interessante que a publicação apresenta a abertura do conhecimento como um processo natural advindo do uso das potencialidades das novas tecnologias da informação. Aponta que estimular a abertura do conhecimento é o caminho para melhor aproveitamento dos recursos públicos investidos em ciência e inovação, entre diversas outras vantagens, como as vantagens educacionais.

Apresenta princípios para a abertura do conhecimento através de inovação aberta, ciência aberta, ciência cidadã, citando indiretamente a Wikipédia. Entretanto o texto é superficial nas questões de licenciamento e modelos exemplares de inovação aberta particularmente por não mencionar o software livre e as licenças permissivas, ambos fundamentais para atingir os objetivos propostos no texto. Cita o CERN como origem da World Wide Web, porém não menciona a licença de Hardware Aberto do CERN. Enfim, tomando as questões de licenciamento e plataformas abertas e sua interação com o ensino de ciências e engenharias, os trabalhos desenvolvidos no CTA IF/UFRGS tem muito para contribuir para enriquecer este debate tanto para as questões Europeias, como também no contexto brasileiro.

A publicação sugere a utilização de um conceito chamado “Global Research Area”. Neste conceito “pesquisadores e inovadores podem trabalhar com colegas internacionais onde pesquisadores, conhecimento científico e tecnologia circulam tão livremente quando possível”. Para o Brasil, as tecnologias desejadas para ensino de ciências e engenharias são aquelas que tem as propriedades das “Global Research Area”, ou seja, “o conhecimento científico e tecnologia circulam tão livremente quando possível”.

Outro destaque são as cinco linhas de ações políticas para promover Ciência Aberta:

  1. Fostering and creating incentives for Open Science, by fostering Open Science in education programmes, promoting best practices and increasing the input of knowledge producers into a more Open Science environment (citizen science). This area is also concerned with guaranteeing the quality, impact and research integrity of (Open) Science;
  2. Removing barriers to Open Science: this implies, among other issues, a review of researchers’ careers so as to create incentives and rewards for engaging in Open Science;
  3. Mainstreaming and further promoting open access policies as regards both research data and research publications;
  4. Developing research infrastructures for Open Science, to improve data hosting, access and governance, with the development of a common framework for research data and creation of a European Open Science Cloud, a major initiative to build the necessary Open Science infrastructure in Europe; and,
  5. Embedding Open Science in society as a socio-economic driver, whereby Open Science becomes instrumental in making science more responsive to societal and economic expectations, in particular by addressing major challenges faced by society.

Mais alguns trechos interessantes:

“This publication shows how research and innovation is changing rapidly. Digital technologies are making the conduct of science and innovation more collaborative, more international and more open to citizens.”

“Put simply, the advent of digital technologies is making science and innovation more open, collaborative, and global.”

“… What is meant by Open Innovation? The basic premise of Open Innovation is to open up the innovation process to all active players so that knowledge can circulate more freely and be transformed into products and services that create new markets, fostering a stronger culture of entrepreneurship.”

“… specific innovation can no longer be seen as the result of predefined and isolated innovation activities but rather as the outcome of a complex co-creation process involving knowledge flows across the entire economic and social environment.”

Challenges in areas like energy, health, food and water are global challenges.

“We need to be Open to the World! Europe is a global leader in science, and this should translate into a leading voice in global debates. To remain relevant and competitive, we need to engage more in science diplomacy and global scientific collaboration. It is not sufficient to only support collaborative projects; we need to enable partnerships between regions and countries.”

“…for a rapid and effective global research response to outbreaks like Ebola or Zika; contributing to the evidence base for the International Panel on Climate Change and COP21 negotiations…”

“To maximise their potential, the main components of the ‘Open Innovation’ and ‘Open Science’ policies should also be ‘Open to the World’.”

“One focus has been on the concept of a Global Research Area where researchers and innovators are able to work together smoothly with colleagues worldwide and where researchers, scientific knowledge and technology circulate as freely as possible.”

Texto completo disponível em http://bookshop.europa.eu/en/open-innovation-open-science-open-to-the-world-pbKI0416263/