Patenteando a vida?

Texto contribuído por Luca Maciel.

Imagem de TaxRebate.org.uk obtida em https://www.flickr.com/photos/59937401@N07/5858045584/in/photostream/

Está em discussão na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio (CDEIC), para posterior votação no Plenário da Câmara dos Deputados, o PLN Nº 4.961/05 do deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP). Este Projeto de Lei estabelece que as substâncias ou materiais extraídos de seres vivos naturais e materiais biológicos serão considerados invenção ou modelo de utilidade, podendo ser patenteados.”

A Lei anterior, por enquanto ainda vigente, diz:

Art. 10. Não se considera invenção nem modelo de utilidade:

[...]

IX – o todo ou parte de seres vivos naturais e materiais biológicos encontrados na natureza, ou ainda que dela isolados, inclusive o genoma ou germoplasma de qualquer ser vivo natural e os processos biológicos naturais.

Não sendo “do ramo” (sou socióloga), mas instintivamente colocando-me contrária à proposta da lei, fui conversar com quem entende do assunto – o da biologia e das patentes.

Além das questões éticas e morais implicadas, e das nossas discussões sobre a privatização do conhecimento, há concordância entre os especialistas consultados que “seres vivos naturais e materiais biológicos” não são – nem podem ser considerados como – “invenção ou modelo de utilidade”.

Parece lógico, conforme comentário de pesquisador do Butantã: na lei anterior, para poder patentear, era preciso fazer modificações naquilo que foi descoberto para que constituísse uma invenção. Na nova, aparentemente, se você descobre algo novo em um organismo, como uma molécula X com atividade Y, já pode patentear “in natura“. Nesse sentido, é preciso lembrar que uma invenção é algo que você cria, que antes não existia como tal. Já uma descoberta é algo que você encontra como tal, independentemente do uso que você dá à descoberta.

Outro especialista acadêmico, de instituição de pesquisa em saúde, diz que o projeto do Mendes Thame reflete a preocupação de parte da indústria (multinacional, sobretudo) que reclama proteção mais robusta para os seus investimentos em pesquisa. Alguns grupos de pesquisa brasileiros podem se beneficiar desta medida.

Faz também as seguintes considerações: produtos sob monopólios são geralmente muito mais caros e empresas detentoras da patente recolhem royalties (em geral, enviados ao exterior). A ponderação certamente passa pelo benefício que será dado aos nacionais, pelo potencial de atração do investimento direto estrangeiro e pela conta a ser paga para acesso a produtos importados que usufruem de proteção em território brasileiro. Chama atenção para o fato de que, em relação às questões éticas, temos uma variedade de opiniões. Desde grupos que não consideram este tipo de proteção como ofensa moral de modo algum até aqueles que defendem o banimento total.

Interessante lembrar o caso das patentes Myriad, que chamou muita atenção ao confirmar o banimento da proteção de invenção correlata nos EUA. A Suprema Corte dos EUA decidiu por unanimidade, em 13/06/2013, que genes humanos não podem ser patenteados por empresas.

“Genes são produtos da natureza e, portanto, não podem ser patenteados só porque uma empresa conseguiu isolá-los”, disse a Corte. Mais detalhes sobre o caso em nesta notícia do Conjur e nesta página de Bioética da UFRGS.

No Brasil, a Rebrip (Rede Brasileira pela Integração dos Povos) tem feito alertas sobre o tema.

Na mesma direção, o GTPI (Grupo de Trabalho em Propriedade intelectual) divulgou carta aberta à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania – CCJC em 19/03/2015, pedindo que seja reconhecido “o caráter eminentemente público da lei de patentes e seus impactos na saúde pública e no acesso a medicamentos, e não apenas interesses privados e industriais”. Mais detalhes.

Para quem estiver interessado, há uma petição criada pelo GTPI neste link da Avaaz.

Maria Lucia Maciel, 22/03/2015

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Dia do Bibliotecário

College library
Fotografia de Paul Stainthorp licenciada sob CC-BY e disponível em https://www.flickr.com/photos/pstainthorp/7457308888.

No dia 12 de Março é o Dia do Bibliotecário e o Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade de São Paulo (SIBiUSP) estará promovendo um encontro comemorativo no Auditório Carolina Bori localizado no Instituto de Psicologia da USP das 14:00 às 17:00.

O encontro contará com uma breve palestra de

  • Prof. Dr. Murilo Bastos da Cunha – UnB
  • Prof. Dr. Demi Getschko – NIC.br
  • Profa. Dra. Kelly Rosa Braghetto – IME US
  • Raniere Gaia Costa da Silva – UNICAMP

que posteriormente participaram de uma mesa redonda mediada pela Profa. Dra. Regina Melo Silveira, EP USP, sob o tema “Semeando na Nuvem – A biblioteca, a inovação e a produção de conhecimento”.

Existem várias propostas interessantes que podem ser levadas para essa mesa redonda como, por exemplo, o uso de wikis como plataforma para relatórios/dissertações/teses/… que foi levantado pelo Leandro Andrade na lista de email. Se alguém desejar que eu leve alguma questão para o encontro pode utilizar os comentários desse blog, enviar um email para a lista ou entrar em contato direto comigo.

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2o. Colóquio Linguagens, Tecnologias & Pós-Sociedade/Humanidade

CONVITE

Dia 16/3, das 9:50-12:15h, se realizará no Anfiteatro do IEL/UNICAMP o 2o. Colóquio Linguagens, Tecnologias & Pós-Sociedade/Humanidade, organizado pelo grupo Litpos (http://cienciaaberta.iel.unicamp.br/litpos/).

Não é necessário fazer inscrição antecipadamente.

Crtaz do 2o Coloquio LITPOS

Cartaz do 2o Coloquio LITPOS

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Participe da primeira edição de 2015 do WebEncontro do Grupo de Trabalho em Ciência Aberta

encontro

Acontece no dia 24 de fevereiro, às 20h30 (horário de Brasília), mais um WebEncontro do Grupo de Trabalho em Ciência Aberta. Organizado de forma colaborativa, o evento pretende discutir, entre outros tópicos, o planejamento das atividades do grupo para 2015.

Nessa edição também se discutirá a relação do grupo com a seção brasileira da Open Knowledge Foundation (OKF-BR) e seus outros projetos, bem como com outros grupos “Open Science” relacinados com a seção global da OKF. O encontro também é uma oportunidade para os novos membros ou interessados em participar do Grupo de Trabalho se apresentarem e conhecerem as atividades desenvolvidas pelos demais.

As discussões do grupo podem ser acompanhadas pelos canais do GT e na página dos encontros na Wikiversidade, onde também é possível se sugerir novos temas para discussão.

Para participar basta acessar http://bit.do/webencontro-fev2015 (em caso de problemas utilizar #cienciaaberta na Freenode: https://kiwiirc.com/client/irc.freenode.org/#cienciaaberta) no dia e horário marcados.

Criado em 2013, o Grupo de Trabalho em Ciência Aberta é parte de uma rede global de ciência aberta apoiada pela Open Knowledge Foundation. No Brasil, ele é formado por pesquisadores e pesquisadoras em dezenas de universidades brasileiras que buscam promover e estudar práticas abertas na ciência. Atualmente, o grupo mantém um blog com textos de reflexão e notícias sobre o tema, além de uma lista de emails aberta onde as pessoas interessadas podem se inscrever para acompanhar as discussões e se envolver com as atividades do grupo.

Serviço:

O que: WebEncontro do Grupo de Trabalho em Ciência Aberta

Quando: 24/02/2015, às 20h30 (horário de Brasília)

Onde: http://bit.do/webencontro-fev2015 (em caso de problemas utilizar #cienciaaberta na Freenode: https://kiwiirc.com/client/irc.freenode.org/#cienciaaberta)

Mais informações: página dos encontros na Wikiversidade

Saiba mais:

 

Nota: este é um remix do texto Participe do Encontro Virtual do Grupo de Trabalho em Ciência Aberta, produzido por Jamila Venturini para este blog.
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Colaboração científica online: a sequência

Nota: Este post é uma tradução de “Online scientific collaboration: the sequel” escrito por Jon Udell. Foi obtido permissão via email do autor para a realização da tradução e publicação.

Em 2000 fui contratado para escrever um relatório chamado “Internet Groupware for Scientific Collaboration“. Isso foi antes das redes sociais modernas e antes dos blogs se popularizarem. Mas arxiv.org já tinha se estabelecido, e wikis e serviços de calendário e Manila, um sistema de gerenciamento de conteúdo criado por Dave Winer, e vários foruns de discussão relevantes ao tema. Do lado de padrões, RSS, MathML, e SVG estavam emergindo. Uma das minhas previsões, que serviços web leves e independentes importavam, mostrou-se acurada. Outra, a ideia de um canvas universal para criação e edição de palavras, figuras, data e computação, continua como parte de um futuro não concretizado, embora projetos como IPython Notebooks e Federated Wiki reacendem minha esperança de que chegaremos lá.

Agora estou escrevendo uma atualização para esse relatório. Existe negócios não acabados a serem considerados mas também várias novas atividades. Colaboração científica acontece nas redes sociais e em blogs, obviamente. Acontece em redes sociais científicas/acadêmicas. Acontece em e em volta de jornais de acesso aberto. Acontece no GitHub onde você pode encontrar softwares de código aberto e projetos relacionados com dados abertos nas mais diversas disciplinas. Acontece no Reddit, em sites de perguntas e respostas como o StackExchange, em páginas web dedicadas a ciência cidadã e em outros lugares que eu nem faço ideia.

Desejo entrevistar pesquisadores engajados em vários aspectos da colaboração científica online. Tenho contatos com algumas dos grupos que preciso alcançar mas preciso alcançar uma rede ainda maior. Desejo escutar, de praticantes nas ciências naturais, ciências sociais, e humanidades sobre como você e seus pares, de disciplinas próximas ou não, fazem, ou não, para colaborar online, tanto em contextos específicos (jornais de acesso aberto, redes sociais científicas/acadêmicas) e e contextos mais amplos (blogs, redes sociais convencionais). Como sua atividade nesses ambientes avança (ou não) o seu trabalho? Como ela ajuda a conectar (ou não) seu trabalho com a sociedade em geral?

Se você é alguém que deseja-se envolver-se nesse projeto, por favor deixe um comentário aqui ou enviando-me um email (você encontra o endereço na minha página). E se você conhecer alguém que possa se interessar em envolver-se, por favor passe a informação adiante.

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Reflexões sobre "Oficina de Cadernos de Pequisas Abertos" na UFC

Raniere ministrando oficina na UFC.

No início da semana passada ocorreu uma oficina, de dois dias, focada em cadernos de pesquisas abertos na Universidade Federal do Ceará.

A começou com uma palestra do Luiz Carlos Irber Júnior sobre o tema e como ele aplica esse conceito no seu dia a dia como doutorando na Michigan State University sob a supervisão do Dr. C. Titus Brown. A palestra foi muito interessante e encontra-se disponível para quem desejar assistir.

Depois da palestra inicial teve uma pausa para o almoço e durante a parte da tarde foi apresentado a linguagem de marcação Markdown e a ferramenta para controle de versão Git em conjunto com o GitLab.

Pelo feedback que tivemos dos alunos, eles gostaram das atividades realizadas na parte da tarde.

No dia seguinte, focamos na reprodutibilidade. Para isso utilizamos a linguagem Python como meio de mostrar que é possível desenvolver uma pesquisa facilmente reprodutível por outros.

Infelizmente a presença no segundo dia foi pequena e ainda estamos tentando descobrir o motivo.

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Ciência aberta na prática: Reproducibilidade, notebooks e tudo mais

Luiz Carlos Irber Júnior durante uma das oficinas da Software Carpentry.

Na abertura da oficina sobre ciência aberta que ocorrerá segunda e terça-feira na UFC teremos uma palestra do Luiz Carlos Irber Júnior que será transmitida ao vivo pela internet.

Resumo da palestra

Uma apresentação sobre o que é reproducibilidade e como open notebooks podem ser usados para implementá-la, com exemplos ancorados em minha experiência própria, com todos os percalços e vitórias no caminho.

Vou comentar também sobre como nós fazemos ciência aberta no nosso laboratório, e como é a interação com (e como convencemos) colaboradores.

Mini bio do palestrante

Formado em Engenharia de Computação pela UFSCar, atualmente doutorando em ciência da computação na Michigan State University no Laboratório de Genômica, Evolução e Desenvolvimento (Dr. C. Titus Brown). Também sou instrutor do Software Carpentry a seis meses, e a uma década tentando fazer computação mais acessível para cientistas =]

Quando

Segunda-feira, 02 de Fevereiro, às 11:30 no horário de Brasília.

Onde

  • Universidade Federal do Ceará: Sala 3 (Anfiteatro da PGMAT) – Bloco 914 – 1o. andar (Campusdo Pici).
  • Youtube.
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Oficina de Cadernos de Pequisas Abertos na UFC

Nos dias 02 e 03 de Fevereiro será realizado uma oficina sobre cadernos de pequisas abertos na Universidade Federal do Ceará.

A oficina iniciará com uma palestra que é aberta a todos mas devido ao número limitado de lugares para as atividades práticas os interessados precisam se inscrever seguindo as inscrições nessa página.

O cronograma da oficina e maiores informações encontram-se disponíveis na página do evento.

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Gravação do Encontro de 2014 disponíveis

Finalmente os vídeos do encontro realizado no Rio de Janeiro em Agosto de 2014 foram disponibilizados (verifique aqui).

Mais uma vez agradecemos o esforço de todos que contribuíram para a realização desse maravilhoso evento.

Se você tiver alguns minutos disponíveis, gostaríamos de pedir que compartilha-se os vídeos com seus amigos e colegas. Se você tiver algumas horas disponíveis verifique a lista abaixo:

  • Criar uma lista de links apontando para o ponto do vídeo onde começa a palestra de cada um dos participantes. Por exemplo, http://youtu.be/KouRJA_iH9Y?t=29m13s é o link para o ponto em que a palestra do Leslie Chan começa.Essa lista é bem útil pois facilitará a vida de quem quiser assistir apenas uma das palestras.

    Se você fizer essa lista você pode enviar na nossa lista de email que alguém adiciona no site (se você quiser já adicionar direto no site é só pedir uma conta).

  • Legendar os vídeos.Várias das palestras foram proferidas em inglês o que é um empecilho para o material ser consumido por várias pessoas. Disponibilizar legendas implicaria em aumentar o alcance dos vídeos.

    Se você nunca legendou um vídeo mas deseja tentar você pode utilizar o Amara.

  • Remixar os vídeos.Seria ótimo termos um vídeo com os melhores momentos do seminário e se você desejar fazê-lo você pode!
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Rascunho da tradução de “The risk of open access becoming integrated into existing commercial publishing – the need of a global system of noncommercial open access scholarly communications”

Essa tradução foi preparada em Markdown e convertida para HTML utilizando o Pandoc. Melhorias podem podem ser indicadas nos comentários.


O risco do acesso aberto ficar atrelado às editoras comerciais existentes – a necessidade de um sistema global de publicações acadêmicas de acesso aberto não comercial

Notas

  1. O texto aqui presente é uma tradução de

    Babini D. The risk of open access becoming integrated into existing commercial publishing – the need of a global system of noncommercial open access scholarly communications. Rev Eletron de Comun Inf Inov Saúde [Internet]. out-dez 2014; 8(4):438-442.

    Disponível em: http://www.reciis.icict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/982.en

    Submetido: 24.nov.2014 | Aceito: 27.nov.2014 | Publicado: 19.dez.2014

    Conflito de interesses: não há.

    Fontes de financiamento: não houve.

    Licença: CC BY-NC atribuição não comercial. Com essa licença é permitido acessar, baixar (download), copiar, imprimir, compartilhar, reutilizar e distribuir os artigos, desde que para uso não comercial e com a citação da fonte, conferindo os devidos créditos de autoria. Nesses casos, nenhuma permissão é necessária por parte dos autores ou dos editores.

  2. O texto original foi baseado na apresentação Open Access Scholarly Publishers Association-OASPA’s 6th Conference on Open Access Scholarly Publishing (COASP), UNESCO, September 2014. http://river-valley.zeeba.tv/apcs-the-new-enclosure-to-knowledge/

Resumo

Na Europa e nos Estados Unidos, as publicações acadêmicas têm sido terceirizadas, e um dos negócios mais lucrativos nesse cenário foi criado pelas principais editoras acadêmicas comerciais internacionais que, hoje, se oferecem para cuidar do acesso aberto, construindo uma nova área para o conhecimento fechada ao países do Sul. Assim, desviam a atenção de governos, de agências de financiamento e da comunidade acadêmica, no Norte e no Sul, no que se refere à necessidade de construir um ecossistema mundial baseado em plataformas de publicação e repositórios de acesso aberto não comercial institucionais, nacionais e internacionais, compartilhados e com interoperabilidade. Se quisermos que as vozes dos países do Sul tenham mais participação e impacto nos debates globais sobre questões que nos preocupam, a comunidade acadêmica global deverá cuidar das publicações acadêmicas de acesso aberto, inclusive dos sistemas de revisão por pares, de controle de qualidade e de indicadores para avaliação.

Palavras-chave: Publicações acadêmicas; Acesso aberto; Repositórios; Periódicos científicos; Avaliação de pesquisas; Taxas para publicação de artigos 

Artigo

temos que fazer uma série de decisões a todo momento …
temos que pensar sobre quem está sendo incluído e quem está sendo excluído …
… o que parece aberto para nós hoje, precisamos nos perguntar … isso será visto como aberto amanhã?

John Willinsky1

Várias décadas atrás, a comunidade acadêmica na Europa e nos Estados Unidos da América terceirizou a comunicação acadêmica e um dos negócios mais lucrativos2 foi construído pelas principais editoras internacionais acadêmicas comerciais. Com margens de lucro de 30-40%3, principalmente devido ao fato dos salários dos autores, revisores e muitas vezes do comiter editorial ser pago, diretamente ou através da exoneração de taxas4, por meio de recursos públicos e outros recursos de pesquisa. Editoras comerciais acadêmicas tem cuidado da comunicação acadêmica fechada, cuidado para que apenas os "melhores" periódicos, definidos nos seus próprios termos, sejam incluídos nos índices de avaliações científicos5678, e assim perpetuando o círculo vicioso onde as vozes do Sul, sobre problemas de interesse de grande parte da população mundial, tem pouca possibilidade e ser ouvido, lido, utilizado, quando realizado novas pesquisas e debates problemas prioritários para um mundo sustentável.

Agora, editoras comerciais oferecem-se para cuidar do acesso aberto, cobrando uma taxa de processamento por artigo (TPA ou, em inglês, APC) média de USD 2.097/2.727 por artigo para que esse seja publicado em acesso aberto9, buscando assim reproduzir o modelo anterior de preços irracionais10, transformando o acesso aberto de forma a ele funcionar aos seus próprios objetivos11, criando uma nova barreira ao conhecimento do Sul12. Em um contexto internacional onde apenas 30% dos periódicos cobram TPA’s13, é preocupante ver o avanço do modelo baseado na cobrança de taxa de processamento por artigo como o melhor caminho para a publicação em acesso aberto, mesmo que com preços inferiores que os das editoras comerciais, pois distraí governos, agências de financiamento e a comunidade acadêmica, tanto do Norte como do Sul, da necessidade de construir um ecossistema global para o acesso aberto baseado no compartilhamento e interoperabilidade institucional não comercial para repositórios digitais de acesso aberto14 e plataformas de publicação nacionais e internacionais que não cobrem os usuários e nem os autores/instituições. Isso irá permitir atingir o objetivo do International Council for Science-ICSU para o acesso aberto15:

O registro científico deve ser:

  • livre de barreiras financeiras para que qualquer pesquisador possa contribuir com;
  • livre de barreiras financeiras para que qualquer usuário tenha acesso imediato as publicações; …

O acesso ao conhecimento é um direito humano. A internet, a Web e novas tecnologias informacionais e de comunicação permitem que cada momento mais oportunidades para regiões em desenvolvimento contribuírem em conversas locais/regionais como também globais. Essas contribuições precisam passar por um controle de qualidade e aparecerem em indicadores de avaliação, independente de serem publicados em inglês na América do Norte ou serem publicados em línguas locais por editoras independentes locais/regionais. Entender o conhecimento como algum comum16 está nos ajudando a pensar em maneiras como podemos gerenciar o acesso aberto também como algo comum. A comunidade acadêmica global precisa ter o controle do processo de revisão por pares e do sistema de indicadores de avaliação. Repositórios de acesso aberto e portais de periódicos gerenciados como iniciativas colaborativas entre universidades e outras organizações de pesquisa em regiões em desenvolvimento17 indicam claramente que uma abordagem base-topo pode servir muito bem a políticas de acesso aberto sendo emitidas por governos e agências de financiamento18. Implementar o acesso aberto em cada país consiste em investir no desenvolvimento de repositórios de acesso aberto e infraestrutura de publicação, adoção de políticas de acesso aberto, programas educacionais e promoção do acesso aberto19.

Se quisermos que vozes do Sul tenha mais participação e impacto em conversas globais sobre problemas de interesse com para todos, a comunidade acadêmica global deve cuidar do modelo de acesso aberto para a comunicação acadêmica.

Se a comunidade científica deseja garantir que um regime de acesso aberto que melhor satisfaça suas necessidades seja instaurado ela deveria urgentemente abraçar o acesso aberto hoje, e sob os seus próprios termos. Se ela esperar até que o acesso aberto seja confiável é provável que terá que aceitá-lo de uma maneira muito menos prazerosa. Faça hoje ou arrependa-se confortavelmente.

Richard Poynder20


  1. John Willinsky na Conference Opening Science to Meet Future Challenges [streaming video]. [Warsaw, Poland]: 11 Março 2014. [citado em 2014 Novembro 22]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jODzw_5q7EU

  2. Monbiot, G. Academic publishers make Murdoch look like a socialist. The Guardian [Internet]. 29 August 2011 [cited 2014 November 22]; Available from: http://www.theguardian.com/commentisfree/2011/aug/29/academic-publishers-murdoch-socialist

  3. Taylor, M. The obscene profits of commercial scholarly publishers. 2012 Jan 13 [cited 2014 Nov 22]. In: Saurapod Vertebra Picture of the Week [Internet blog]. [Place unknown]: Available from: http://svpow.com/2012/01/13/the-obscene-profits-of-commercial-scholarly-publishers/

  4. Shieber, S. Public underwriting of research and open access. 2014 Apr 4 [cited 2014 Nov 22]. In: The Occasional Pamphlet on Scholarly Communications [Internet blog]. Cambridge, Mass. Available from: http://blogs.law.harvard.edu/pamphlet/

  5. Vessuri H, Guédon J-C, Cetto A M. Excellence or quality? Impact of the current competition regime on science and scientific publishing in Latin America and its implications for development. Current Sociology. 2014 September; 62: 647-665.

  6. Chan L, Kirsop B, Arunachalam S. Towards Open and Equitable Access to Research and Knowledge for Development. PLoS Med 2011; 8(3). Available from: http://www.plosmedicine.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pmed.1001016

  7. Chan L, Gray E. Centering the Knowledge Peripheries through Open Access: Implications for Future Research and Discourse on Knowledge for Development. In: Open development : networked innovations in international development / edited by Matthew L. Smith, and Katherine M.A. Reilly. Cambridge, MIT Press, 2013 [cited 2014 Nov 22]. Available from: https://tspace.library.utoronto.ca/bitstream/1807/44099/1/Chan%26Gray_Open%20Development.pdf

  8. Czerniewicz L. Inequitable power dynamics of global knowledge production and exchange must be confronted head on. 2013 Apr 29 [cited 2014 Nov 22]. In: The impact blog [Internet]. London: London School of Economics-LSE. Available from: http://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2013/04/29/redrawing-the-map-from-access-to-participation/

  9. Björk B-C, Solomon D. Developing an effective market for open access article processing charges. Final report. (2014). Espoo, Finland and Michigan, USA; 2014 [cited 2014 Nov 22]. Available from: http://www.wellcome.ac.uk/About-us/Policy/Spotlight-issues/Open-access/Guides/WTP054773.htm

  10. Willinsky J. The replicability of research´s irrational publishing economy. 2014 Nov 20 [cited 2014 Nov 22]. In: Slaw Canada´s online legal magazine [Internet blog]. Available from: http://www.slaw.ca/2014/11/20/the-replicability-of-researchs-irrational-publishing-economy/

  11. Rentier B. The success of Open Access is revealing new dangers. The fight isn´t over yet. 2014 Oct 25 [cited 2014 Nov 22]. In: Ouvertures immédiates [Internet blog]. Belgium. Available from: https://bernardrentier.wordpress.com/2014/10/25/the-success-of-open-access-is-revealing-newdangers-the-fight-isnt-over-yet/

  12. Babini D. APC´s – a new enclosure to knowledge. At: COASP – 6th Conference on Open Access Scholarly Publishing. [streaming video]. [UNESCO,Paris, France]: 2014 Sept 19 [cited 2014 Nov 22]. Disponível em: http://river-valley.zeeba.tv/apcs-the-new-enclosure-to-knowledge/

  13. Directory of Open Access Journals [Internet]. Lund, Sweden: the Directory of Open Access Journals; [cited 2014 Nov 22]. Available from: www.doaj.org

  14.   Open access digital repositories are registered in http://www.doar.org.

  15. International Council for Science-ICSU. Open access to scientific data and literature and the assessment of research by metrics. 2014 [cited 2014 Nov 22]. Available from: http://www.icsu.org/general-assembly/news/ICSU%20Report%20on%20Open%20Access.pdf

  16. Hess Ch, Ostrom E, editors. Understanding knowledge as a commons: From theory to practice. Cambridge: MIT Press; 2006 [cited 2014 Nov 22]. 382 p.

  17.   Examples of non-commercial open access regional journal portals in developing regions are SciELO and Redalyc (Latin America), AJOL and Scielo SA (Africa). Several universities run collections of their own open access journals, examples of universities with more than a hundred journals in their collection: the National Autonomous University of Mexico (UNAM), the University of Sao Paulo (Brazil), and the University of Chile. In recent years main research universities from developing regions have started developing, or planning, institutional open access digital repositories, which interoperate with national and regional systems of digital repositories, as is the case of 9 countries of Latin America in La Referencia, member of COAR-Confederation of Open Access Repositories.

  18.   Examples in Latin America: Peru and Argentina have passed in Congress in 2013 national legislation requiring open access repositories for publicly-funded research, Mexico in 2014, and still in Congress in Brazil and Venezuela. World national and institutional open access policies are registered in http://roarmap.eprints.org/

  19. Swan A, Willmers M and King T. Opening access to Southern African research: recommendations for university managers. SCAP (Scholarly Communication in Africa project). 2014 [cited 2014 Nov 22]. Available from: http://openuct.uct.ac.za/sites/default/files/media/SCAP_Brief_4_Swan_et_al_Opening_Access.pdf

  20. Poynder R. The State of Open Access. 2014 Mar 21 [cited 2014 Nov 22]. In: Open and Shut [Internet blog]. England. Available from: http://poynder.blogspot.co.uk/2014/03/the-state-ofopen-access.html

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