A ideia de que o conhecimento científico, de todos os tipos, deve ser compartilhado abertamente tão cedo quanto praticável no processo de descoberta. —Michael Nielsen
Categoria: Ciência Aberta

Resposta ao jornalista Maurício Tuffani, com relação ao seu artigo opinativo “O Qualis e o silêncio dos pesquisadores brasileiros”.

O questionamento do jornalista Maurício Tuffani é bem-vindo, especialmente considerando taxas pagas com dinheiro público. A maioria dos publishers acusados me parece realmente questionável. Aprecio também o trabalho jornalístico em tentar apresentar e discutir o outro lado da moeda. Permita-me porém complicar um pouco mais a história e introduzir alguns tons de cinza nessa figura deveras preto no branco.

Listas classificatórias não devem ser tratadas como uma panaceia. Devemos nos perguntar como é emitido o veredito afirmando que um periódico é predatório ou não, questionando os acusadores também. Atualmente há uma única lista-negra, mantida por um bibliotecário com auto-declarado desgosto por acesso aberto (mesmo que legitimo e genuino; veja artigo de Beall na revista tripleC). Alguns publishers mais agressivos já foram chamados de predatórios (p.ex., Hindawi) e tiveram as acusações posteriormente removidas pelo próprio Beall, porém não é claro quantos falso-positivos como esse já existiram ou ainda existem. Persistem atualmente nomeações controversas, como a da MDPI, cujos periódicos incluem um patrocinado por uma sociedade científica e outro com revisão por pares aberta na Internet.

A mesma MDPI foi investigada pela Associação de Publishers de Acesso Aberto (OASPA) e teve seu caso dispensado. Também foi alvo da operação infiltrada do correspondente da revista Science e acabou rejeitando o artigo forjado. Por outro lado, a MDPI é notória por defender a publicação de artigos acusados de pseudo-científicismo, além de ser vítima frequente de dúvidas a respeito da participação de nobelistas nos seus comitês editoriais (acusação que infelizmente é passada adiante sem verficação por veículos como a revista Veja). Outros publishers, como a SCIRP, recebem fatores de impacto legítimos da Thomson-Reuters, mas por vezes acabam perdendo-o devido a anomalias nas citações (como no caso dos cinco periódicos brasileiros de medicina em anos anteriores).

Eventualmente a comunidade acadêmica brasileira vai ter que se debruçar e verificar esses periódicos mais de perto um-a-um, e então confirmar/rejeitar a sua inclusão no Qualis, área-a-área. O fato é que o Qualis é uma classificação posterior dos veículos nos quais já foram publicados artigos por autores brasileiros no triênio passado. Ao mesmo tempo que é um direito do contribuinte cobrar um posicionamento dos acadêmicos representantes de área junto à Capes, cabe respeitar o veredito que esses especialistas vierem a tomar com relação a tais periódicos suspeitos.

Agradeço ao jornalista Tuffani pelo escrutínio. Por favor continue com o bom trabalho e a dedicação dispensada. A nossa sociedade necessita de um jornalismo investigativo forte e atuante.

(Auto-transparência com relação a possíveis conflito de interesse: nunca publiquei um artigo nesses periódicos, porém já emiti pareceres na revisão por pares de artigos submetidos para publicação em um deles. Minha motivação nesse post é ver pesquisadores e professores competentes publicando em periódicos decentes tendo sua legitimidade questionada — de forma potencialmente, possivelmente, e provavelmente injusta.)

-Felipe Geremia Nievinski.
PhD em Engenharia Aeroespacial
Pós-doutorando (UNESP)
Professor (IFSC)
http://lattes.cnpq.br/8920245600831468
http://researchgate.net/profile/Felipe_Nievinski
http://publons.com/a/301899

PS: com relação a um mesmo periódico ser alocado em diferentes estratos dentro de diferentes áreas do conhecimento, isso é razoável e até desejável. É uma consequência natural do requisito de classificação, de que cada estrato seja ocupado por um número percentual fixo de periódicos. Assim, as diferentes estratificações refletem áreas do conhecimento mais ou menos competitivas. Simples assim.

PPS: a limpeza do Qualis com relação a periódicos predatórios havia sido mencionada em 2014 na lista do grupo Ciência Aberta. Outras anomalias do Qualis foram mencionadas. Parecem haver anais de eventos incluídos como periódicos (não são falso-positivos como o periódico “Anais da Academia Brasileira de Ciências”), veja a área Interdisciplinar do Qualis. Além disso, será que mega journals (com baixa seletividade) como PLOS ONE merecem atenção especial? Por último, a metodologia de classificação difere de área para área; algumas são mais subjetivas (predominantemente humanas e sociais), outras mais objetivas (talvez a da área da Ciência da Computação seja a mais rigorosa, pois normaliza as suas sub-áreas internamente, para que, p.ex., periódicos teóricos não dominem sobre periódicos experimentais).

College library
Fotografia de Paul Stainthorp licenciada sob CC-BY e disponível em https://www.flickr.com/photos/pstainthorp/7457308888.

No dia 12 de Março é o Dia do Bibliotecário e o Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade de São Paulo (SIBiUSP) estará promovendo um encontro comemorativo no Auditório Carolina Bori localizado no Instituto de Psicologia da USP das 14:00 às 17:00.

O encontro contará com uma breve palestra de

  • Prof. Dr. Murilo Bastos da Cunha – UnB
  • Prof. Dr. Demi Getschko – NIC.br
  • Profa. Dra. Kelly Rosa Braghetto – IME US
  • Raniere Gaia Costa da Silva – UNICAMP

que posteriormente participaram de uma mesa redonda mediada pela Profa. Dra. Regina Melo Silveira, EP USP, sob o tema “Semeando na Nuvem – A biblioteca, a inovação e a produção de conhecimento”.

Existem várias propostas interessantes que podem ser levadas para essa mesa redonda como, por exemplo, o uso de wikis como plataforma para relatórios/dissertações/teses/… que foi levantado pelo Leandro Andrade na lista de email. Se alguém desejar que eu leve alguma questão para o encontro pode utilizar os comentários desse blog, enviar um email para a lista ou entrar em contato direto comigo.

Nota: Este post é uma tradução de “Online scientific collaboration: the sequel” escrito por Jon Udell. Foi obtido permissão via email do autor para a realização da tradução e publicação.

Em 2000 fui contratado para escrever um relatório chamado “Internet Groupware for Scientific Collaboration“. Isso foi antes das redes sociais modernas e antes dos blogs se popularizarem. Mas arxiv.org já tinha se estabelecido, e wikis e serviços de calendário e Manila, um sistema de gerenciamento de conteúdo criado por Dave Winer, e vários foruns de discussão relevantes ao tema. Do lado de padrões, RSS, MathML, e SVG estavam emergindo. Uma das minhas previsões, que serviços web leves e independentes importavam, mostrou-se acurada. Outra, a ideia de um canvas universal para criação e edição de palavras, figuras, data e computação, continua como parte de um futuro não concretizado, embora projetos como IPython Notebooks e Federated Wiki reacendem minha esperança de que chegaremos lá.

Agora estou escrevendo uma atualização para esse relatório. Existe negócios não acabados a serem considerados mas também várias novas atividades. Colaboração científica acontece nas redes sociais e em blogs, obviamente. Acontece em redes sociais científicas/acadêmicas. Acontece em e em volta de jornais de acesso aberto. Acontece no GitHub onde você pode encontrar softwares de código aberto e projetos relacionados com dados abertos nas mais diversas disciplinas. Acontece no Reddit, em sites de perguntas e respostas como o StackExchange, em páginas web dedicadas a ciência cidadã e em outros lugares que eu nem faço ideia.

Desejo entrevistar pesquisadores engajados em vários aspectos da colaboração científica online. Tenho contatos com algumas dos grupos que preciso alcançar mas preciso alcançar uma rede ainda maior. Desejo escutar, de praticantes nas ciências naturais, ciências sociais, e humanidades sobre como você e seus pares, de disciplinas próximas ou não, fazem, ou não, para colaborar online, tanto em contextos específicos (jornais de acesso aberto, redes sociais científicas/acadêmicas) e e contextos mais amplos (blogs, redes sociais convencionais). Como sua atividade nesses ambientes avança (ou não) o seu trabalho? Como ela ajuda a conectar (ou não) seu trabalho com a sociedade em geral?

Se você é alguém que deseja-se envolver-se nesse projeto, por favor deixe um comentário aqui ou enviando-me um email (você encontra o endereço na minha página). E se você conhecer alguém que possa se interessar em envolver-se, por favor passe a informação adiante.

Raniere ministrando oficina na UFC.

No início da semana passada ocorreu uma oficina, de dois dias, focada em cadernos de pesquisas abertos na Universidade Federal do Ceará.

A começou com uma palestra do Luiz Carlos Irber Júnior sobre o tema e como ele aplica esse conceito no seu dia a dia como doutorando na Michigan State University sob a supervisão do Dr. C. Titus Brown. A palestra foi muito interessante e encontra-se disponível para quem desejar assistir.

Depois da palestra inicial teve uma pausa para o almoço e durante a parte da tarde foi apresentado a linguagem de marcação Markdown e a ferramenta para controle de versão Git em conjunto com o GitLab.

Pelo feedback que tivemos dos alunos, eles gostaram das atividades realizadas na parte da tarde.

No dia seguinte, focamos na reprodutibilidade. Para isso utilizamos a linguagem Python como meio de mostrar que é possível desenvolver uma pesquisa facilmente reprodutível por outros.

Infelizmente a presença no segundo dia foi pequena e ainda estamos tentando descobrir o motivo.

Luiz Carlos Irber Júnior durante uma das oficinas da Software Carpentry.

Na abertura da oficina sobre ciência aberta que ocorrerá segunda e terça-feira na UFC teremos uma palestra do Luiz Carlos Irber Júnior que será transmitida ao vivo pela internet.

Resumo da palestra

Uma apresentação sobre o que é reproducibilidade e como open notebooks podem ser usados para implementá-la, com exemplos ancorados em minha experiência própria, com todos os percalços e vitórias no caminho.

Vou comentar também sobre como nós fazemos ciência aberta no nosso laboratório, e como é a interação com (e como convencemos) colaboradores.

Mini bio do palestrante

Formado em Engenharia de Computação pela UFSCar, atualmente doutorando em ciência da computação na Michigan State University no Laboratório de Genômica, Evolução e Desenvolvimento (Dr. C. Titus Brown). Também sou instrutor do Software Carpentry a seis meses, e a uma década tentando fazer computação mais acessível para cientistas =]

Quando

Segunda-feira, 02 de Fevereiro, às 11:30 no horário de Brasília.

Onde

  • Universidade Federal do Ceará: Sala 3 (Anfiteatro da PGMAT) – Bloco 914 – 1o. andar (Campusdo Pici).
  • Youtube.

Nos dias 02 e 03 de Fevereiro será realizado uma oficina sobre cadernos de pequisas abertos na Universidade Federal do Ceará.

A oficina iniciará com uma palestra que é aberta a todos mas devido ao número limitado de lugares para as atividades práticas os interessados precisam se inscrever seguindo as inscrições nessa página.

O cronograma da oficina e maiores informações encontram-se disponíveis na página do evento.

Nota: Essa é uma versão resumida de http://blog.rgaiacs.com/2014/12/13/swc_at_ufsc.html (em inglês).

Agradecimento: Queria agradecer ao Renato Morais Araujo e Juliano A. Bogoni por terem organizado o workshop.

Na última quinta-feira e sexta-feira, Diego Barneche e eu estivemos na Universidade Federal de Santa Catarina para ensinar R e como utilizá-lo para fazer ciência aberta.

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No nosso público, aproximadamente 20 alunos, tivemos alunos de graduação, mestrado e doutorado de Biologia que aumentaram seus conhecimentos sobre R e também aprenderam o terminal Linux e Git (para controle de versão).

Depois que apresentamos as ferramentas que os alunos precisavam, o Diego apresentou uma sessão relacionada com ciência aberta que mostrou como utilizar tudo que tinhamos ensinado anteriormente para que eles pudessem trabalhar de uma forma melhor.

Pelo retorno que tivemos dos alunos eles aproveitaram bastante o workshop.

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O Alexandre e eu estamos conversando para realizar um evento parecido em Fortaleza no início de Fevereiro (assim que tivermos confirmado o evento iremos disponibilizar maiores informações nesse portal). Caso você tenha interesse de ter um evento semelhante na sua instituição, entre em contato.

No último sábado ocorreu nosso sprint relacionado com o Lattes e aqui você encontram algumas reflexões.

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Pouca Participação

Apenas eu e o Tel participamos. Esperávamos que mais pessoas participassem, pelo menos remotamente, pois problemas com o Lattes é algo que sempre ouvimos em um encontro de ciência aberta além de várias pessoas terem mostrado interesse em utilizar a informação do Lattes. Como aumentamos a participação ainda é uma questão em aberto.

Error Log

Logo no início das atividades descobrimos que o log de erro do Lattes é disponibilizado ao usuário quando tenta-se acessar um perfil que não existe como esse aqui.

Base de Dados para Análise

Uma dos objetivos do sprint era verificar a viabilidade de utilizar o scriptLattes para criar uma base de dados com parte significativa de currículos Lattes que pudesse ser compartilhada entre os interessados em meta-"ciência aberta". Infelizmente não conseguimos verificar um dos arquivos que queríamos (ver mais informações aqui).

Também verificamos que o scriptLattes precisa de uma correção para lidar com requisições de perfis inexistentes pois aparentemente ele não desiste de tentar baixar o perfil inexistente.

Outras conversas

Também tivemos algumas discussões sobre coisas que não gostamos no Lattes, como que elas "deveriam" ser e o que poderíamos fazer. Você pode ler algumas sobre isso na Wikiversidade.

Esse sábado, 08 de novembro, será realizado na UNICAMP um sprint voltado ao OpenLattes/ScriptLattes como previamente anunciado.

Como Participar

Estaremos utilizando o espaço do NIED na UNICAMP e os interessados apenas precisam comparecer no NIED a partir das 9:00. Para quem não conhece o NIED, ele fica de frente para a Praça da Paz e do Restaurante Del Sol (ver OpenStreeMap).

Esperamos ter suporte a vídeo conferência para possibilitar a participação remota de quem desejar mas já podermos confirmar no início das atividades. Fique atento aos comentários deste post.

Para quem não mora em Campinas e quiser participar, você pode tentar combinar uma carona na nossa lista.

Projetos Propostos

Temos vários projetos propostos tanto para o OpenLattes como para ScriptLattes. Fique a vontade para adicionar novas propostas.

Maiores informações

Se precisar de maiores informações você pode utilizar os comentários desse post.

O jornalista e o cientista. Um querendo saber de tudo, decifrar e divulgar para o mundo. O outro, por vezes, age de maneira discreta, com medo do que a mídia vai veicular sobre a sua pesquisa, especialmente se os resultados ainda forem parciais.

Nenhum dos dois está errado e cada um tem seus medos e dilemas, seguindo sua ética profissional. Mas, o que fica cada vez mais óbvio é a importância de tirar a ciência dos galpões das universidades, dos recônditos laboratórios e dos infindáveis protocolos.

E para termos, de fato, uma ciência aberta, que fale não apenas de métodos, mas que toque no aspecto humano da pesquisa e seus impactos para a sociedade, precisamos de uma mudança de paradigma. O jornalista que trabalha com ciência não pode querer “traduzir” o que leu em um paper e nem pode o cientista resguardar seus dados com medo de que eles sejam publicados de maneira incorreta.

O jornalista de ciência deve, antes de tudo, focar-se mais nos resultados e nos impactos que a pesquisa trará para a vida de determinado grupo social do que para o currículo do cientista e deve ver o cientista muito mais que como um mero pesquisador, mas sim como um ser humano que tem medos e cuja subjetividade influencia no objeto pesquisado.

A divulgação científica não pode ser vista como tradução de métodos para a linguagem leiga, deve, antes de tudo, referenciar as condições sociais de desenvolvimento da pesquisa, o contexto, cenário, desafios e também os dilemas e contrariedades que traz em si.

Uma ciência aberta precisa de um jornalista de coração aberto para encarar a ciência como além do que aquilo que é praticado pelo cientista, mas sim, como o exercício da curiosidade humana em busca de respostas para seus fenômenos.

Como disse o jornalista Carlos Fioravanti recentemente, em uma de suas belíssimas reportagens, “para fazer um trabalho abrangente, os pesquisadores têm de sair do laboratório, colocar uma roupa de estrada, viajar para lugares inimagináveis, conhecer os hábitos e os silêncios dos moradores do interior do país e buscar informações em outros espaços”. É deste caminho das pedras que falo para ter uma ciência verdadeiramente humana e social, na qual o jornalista não tema divulgar as incertezas da pesquisa e o cientista não se sinta inseguro de não ter nos resultados de seu trabalho verdades incotestáveis.

Referência

O caminho de pedras das doenças raras

Texto: Isabela Pimentel, jornalista, especializada em divulgação científica